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2010: a revolução político-eleitoral do Amapá (parte – l)- por Job Miranda

Luciano de Assis, juiz togado, faz um registro histórico ao se reportar sobre a recente eleição amapaense, em um blog local: “… Daí uma grande lição para os políticos. O povo humilde morador das baixadas, dos alagados e dos cortiços tem a seu lado a força do voto. E por mais que sofra as mazelas da pobreza, não está à mercê do poderio econômico exaltado por aquele que mora em terra firme, que manifesta sua preferência política a bordo de suntuosos carros”. Charles Chelala, por seu turno, estampa: “foi uma eleição histórica, [e pela primeira vez] sem máquina [governamental], dois candidatos de oposição no segundo turno (…) probidade como tema central “.

É. 2010,  se faz histórico, também, por quebrar mitos: 1) o de que não se ganha eleição sem máquina pública e sem dinheiro (isto é, sem compra de votos); 2) o de que a Justiça do Amapá jamais permitiria que o PSB ganhasse eleições majoritárias; 3) o de que os Capiberibe nunca mais conseguiriam  parceiros (partidos) para coligações, bem como não conseguiriam ampliar o leque de alianças eleitorais para disputa de segundo turno, e; principalmente, 4) aquele dogma de que Sarney pode tudo.  Não pôde sequer manter a unidade do que se chamava Harmonia (PDT, PSDB, PP, PTB, etc.). Aliás, por reconhecer o desgaste popular que experimenta (62% dos eleitores o rejeitam) e por antever o resultado eleitoral, Sarney manteve-se, fisicamente, ausente de tudo.

Dado a desarmonia na Harmonia, quatro matizes do aspectro político-ideológico estiveram em cena, neste 2010: a direita, representada por Lucas; a centro-direita, por Pedro Paulo e Jorge; a esquerda do campo democrático-popular, por Camilo, e; a esquerda trotskista, por Genival. Nessa moldura não há dúvida de que Lucas representa à direita: 1) pesquisas de opinião revelaram que Barreto obteve 80% dos votos dos eleitores da classe A, no 1º turno e 94%, no 2º. Ora! É exatamente a (sócio-econômica) classe A constituída das classes alta e média-alta (e, é nela que se localizam os ricos e/ou burgueses). Estes, os ricos, sabem, o tempo todo, quem os representa do ponto de vista ideológico; já o povo pobre-assalariado nem sempre. 2) Lucas fora o candidato do grande empresariado. Se não vejamos.

Lucas obteve apoio da totalidade dos políticos empresários, todos, notoriamente, de direita (e legítimos representantes do capital): Jaime Nunes, Vinícius Gurgel, Jurandil Juarez, Davi Alcolumbre, Telma Gurgel, Isaac Alcolumbre, Michel JK, entre outros; contou, ele, com o apoio da burguesia rentista (a que vive de agiotagem oficial, trans-estadual) e da territorialista (do latifúndio rural), os Favacho, por exemplo. 3) Na academia, o PTB, partido de Lucas, é abordado como partido de direita pela ciência política, sem embargo, e irremediavelmente. E, na poesia a direita aparece relacionada à náusea e ao horror, como nos versos do poeta Cazuza: “a burguesia é a direita, é a guerra”. Donde convém lembrar uma consigna dos politicólogos: a política é a continuação da guerra por outros meios.

Outra evidência. Exceto o PCB, cujo, atuais líderes  não têm tradição de esquerda [que Ivan Pinheiro o resgate], Lucas não teve apoio  de nenhum partido de esquerda. Nesta direção, o caso PSOL é exemplar a tal evidência, o Diretório Nacional do partido, que, em 2008, liberara coligação com o PSB, agora proibiu, expressamente, os psolistas (enquanto partido)  de se coligarem ao PTB. No mais, o óbvio: 5) na campanha, Barreto não apresentou qualquer vislumbre, ou cacuete, que o associasse à esquerda, ou que, nesse sentido, esboçasse conteúdo de consciência política socialista e sensibilidade social, por exemplo: de supressão da terceirização neoliberal que precariza o serviço público, explora e oprime milhares de trabalhadores e enriquece com dinheiro fácil uma meia dúzia de empresários (parasitários). No que se reproduz mais desigualdades sociais.

E sobre as desigualdades sociais? Lucas não se comprometeu em combatê-las. Tal câncer social pode ser combatido por meios de: distribuição de renda com salários mais justos (e menos discrepantes); fomento à economia solidária e serviço público com presteza em especial na educação (fonte de inclusão e ascensão social) e na saúde, principalmente aos estratos sociais D e E. A classe E (a de famílias que vivem com renda mensal inferior a dois salários mínimo – pobres), que em 2002 correspondia a 45% das famílias amapaenses, hoje compreende a 62% delas. Um retrocesso social. E, por ironia, educação e saúde são setores que têm enchido de brilho os olhos da corrupção (não combatida por Barreto, apenas no discurso não vale). Garantir à população bens de consumo coletivo como política de Estado às cidades é outro meio necessário; melhor ainda se consolidada no plano diretor de cada uma delas.

Um parêntesis – (quatro notas: 1º- Um político não deixa de ser esquerda por ter recebido apoio de alguém de direita e vice versa; destarte, não se deixa de ser direita por ter apoio de alguém de esquerda. 2º- É perfeitamente inteligível e aceitável um candidato de esquerda receber apoio de um político de direita, pra se eleger, por exemplo, presidente da República e governar o País; agora, se um político de esquerda apóia um candidato de direita a governador, caso tal candidato seja eleito, o governador será de direita, indubitavelmente. 3º- O que pensar de alguém que se diz esquerda e apóia um candidato de direita, em uma eleição de apenas dois candidatos: um de direita e outro de esquerda? 4º- E, por fim, eleições passam, a biografia fica). 2010 foi mesmo do arromba. Apresenta-se histórico até mesmo em relação à ideologia – é coisa humana estar à direita, o impossível é esconder tal coisa. Pois bem.

Histórica. Devoradora de mitos. Melhor ainda, revolucionária. Obviamente, não se trata de uma revolução social ou política formatadora de sociedade e/ou de estado. Mas de um movimento de massas explosivo em uma vertente articulada e outra espontânea, formado por uma aglutinação (em um acúmulo súbito) de forças políticas e sociais que, com fúria irresistível, alegria e coreografia, jamais vistas (de cerca de 20 mil pessoas, no último comício), dinamitou e mandou pro espaço, de uma só vez, a direita e o núcleo do que havia da (agora fossilizada) Harmonia [o PDT e o cérebro dela (que se fez oculto), Sarney]. Explosão, assim, dilaceradora de uma fortaleza que até então parecia intransponível, e impensável às pessoas de pouca fé, mas não às que se movimentam na praia teórica de Eric Hobsbawm.

O que parecia intransponível? Ora! Um sistema de dominação política iniciado em 2003, cujo alicerce residia no reforço a uma cultura política autoritária, conservadora, clientelista, paternalista, comodista, submissivista, etc., e no aparelhamento de estruturas do Estado. Com apropriação e uso de tais ferramentas, transformou-se a política em uma atividade (praticamente) fora-da-lei e manipuladora de “consciências”. De modo a nelas produzir no cérebro das pessoas inversão do real (pelo ilusório, pelo irreal), capaz de fazê-las acreditar não haver realidade crítica de involução social, de escândalo financeiro e crise moral no Amapá, mas, sim, desenvolvimento e futuro promissor. Eis o irreal, o ilusório – vide a propaganda: “o que é bom tem que continuar”. Produto de manipulação de mídia, esse “milagre” de operar a inversão do real foi a droga que, injetada na mente do povo, adormeceu-o de modo tão distraído, que não percebia ser subtraído.

Invariavelmente, o operar da inversão do real tinha mais uma função: desconstruir a imagem de opositores e fazer, como se mágica, desaparecer realizações deles (serviços prestados ao povo). Já com estruturas do Estado se orquestrava isolamento do opositor para privá-lo de coligação a outro partido e ações, em períodos eleitoreiros, tipo: Operação Aciso, Super Fácil ambulante, Expo-feira, construção de passarelas – pontes – nos alagados (onde habitam mais de 80 mil pessoas), pagamento de inscrição ao vestibular/UNIFAP, contratos temporários de trabalho e inchaço da máquina pública com enxurrada de nomeações a cargos comissionados e às gerências de projetos; festival de entrega de cheques a empreendedores, pavimentação asfáltica em ruas da periferia; cooptação ou arregimentação de lideranças de bairros e construção de centros comunitários e convênios envolvendo dinheiro com associações ou clubes de serviço.

Mais ainda, convênios e repasse de dinheiro de última hora às prefeituras; manejo do orçamento público para financiar diversos campeonatos de futebol e outros esportes, quadrilhas folclóricas, carnaval, etc., e articulações de apoio eleitoral e material junto a fornecedores e prestadores de serviço ao Estado. Já com estruturas de âmbito privado se promovia: contratação de milhares de pessoas para trabalhar na campanha eleitoral; pressão sobre beneficiários de programas sociais, tais como renda e energia pra viver melhor; trucagens para programas de TV com o fito de embaraçar ou desmoralizar o oponente; armações pra forjar factóides e da indústria da boataria para amedrontar o povo e surrupiar votos do adversário. Todavia, diz respeito à pura e simples compra de voto, por hora, que diga a Justiça, que pense, que fale… Se isso tudo não bastar, certamente, há mais coisas e relações que se possa imaginar…

A força e a eficiência desse sistema de dominação política são inquestionável e assustadora. Tanto que, até 10/09/2010, dia da Mãos Limpas, Waldez Góes liderava o pleito, nas pesquisas, com 54% das intenções de voto e Pedro Paulo já estava com 22%. Ópera em resumo: não fosse aquela operação federal, Waldez estaria senador eleito e Pedro Paulo certamente passaria para o segundo turno, seguramente com Jorge Amanajás (este, além da Mãos Limpas, fora prejudicado pelo IBOPE). E é exatamente aí o residir do xis da questão: se reeditaria o modelo sistêmico (aludido) de campanha que elegeu Roberto Góes prefeito de Macapá, no 2º turno de 2010? Quem sabe… Em caso afirmativo, o governador eleito seria Pedro Paulo.

Depreende-se daí que, ganhar eleição a governador num ambiente de cultura política desfavorável, contra uma força material que apresenta características de um próto-estado, apegada a uma estratégia de guerra eleitoral que não exista em lançar mão de métodos nada civilizadamente-republicanos é, humanamente, impossível. A-não-ser-que-se-crie, ou por acaso apareça (por acaso no sentido hobsbawriano) uma extraordinária oportunidade e possibilidade de resgate ético da política, ainda que momentâneo, como expressão de tanto cansaço popular com desmandos e lama. Por sorte (ou azar, dependendo do gosto), tal possibilidade foi criada na forma de sentimento de repulsa a sujeira política tucuju revelada para todo o país.

Contudo, referido sentimento ético apenas de per si não seria suficiente para embalar uma revolução. Isso porque, na prática, as coisas não ocorrem assim automaticamente. O povo exige um convencer-se de que um determinado candidato é, de fato, alternativa. E em revolução se precisa de direção. Então entra em cena um político jovem que com talento e habilidade (ladeado de toda uma equipe técnica de competência invejável) dá a direção que insufla e sacode as massas à fúria e a gana revolucionária. Tal competência está relaciona a tanta coisa, entre elas, produção de conteúdos e imagens. E até do inusitado: patrulhas, a assemelharem-se a ações para-militares, na periferia firme e nos alagados para inibir e/ou barrar a nefasta compra do voto. Essa medida encontra justificativa no fato de, por vezes, até em contextos revolucionários há momentos de titubeação da parte de alguns sublevadores.

Todavia, foi porque não se perdeu a fé (e, “por segurança”, era mais cômodo ao PSB aliar-se a Lucas ou a Jorge para eleger Capi senador) e por: firmeza ideológica, destemor (pra não fugir da luta), ousadia e desejo (de Camilo, e de tanta gente imprescindível do PSB e do PT, inicialmente) que se apegou a já ressaltada oportunidade conjuntural e empreendeu-se e realizou-se algo, destaca-se, impensável às pessoas de pouca fé: a revolução ética [probidade] e jovem, mas fundamentalmente do povo pobre (uma vez que majoritariamente o povo esclarecido do centro já estava antenada em Camilo, mas esse povo do centro não passa de uma minoria diante do todo da população) com uma parte dele fervorosamente articulada  ao comando de campanha e outra, que, com a mesma ou mais efervescência ainda agiu espontaneamente, a revelia de tudo, contribuindo a seu modo e por conta própria como se estivesse em situação de vida ou morte, em uma guerra; e, ao mesmo tempo, em festa [do jeito narrado por Luciano de Assis]. Como que um realismo mágico.

A vitória da Frente Popular, e de Camilo, é a vitória da Esquerda, quer como a conceba, contra a Direita. É, sobretudo, a vitória (com sabor de libertação) do povo pobre contra a elite parasitária e sanguessuga, responsável por atrasar (e retroceder) a evolução sócio-histórica do Amapá e de seu povo. Elite esta que, ao estabelecer reportado sistema de dominação, repartia, e quer continuar a repartir, o bolo orçamento (dinheiro) público entre políticos e empresários (os oportunistas, no pejorativo), que através da corrupção, evasão de divisas, da malversação, da falta de projetos e de propósito nobre engessa o crescimento do Amapá, empobrece seu povo, o indigna e o infelicita.

Derrotar a elite dominante, a direita e os representantes dela (Jorge, mais, principalmente, Pedro Paulo e Lucas) tendo como arma primordial o sentimento ético é por si só uma revolução eleitoral. Talvez esta ficha caia, mais cedo ou mais tarde, na psiquê de analistas e de ativistas da política que relutam em compreendê-la. Há, ainda, a possibilidade dessa revolução eleitoral de 2010 significar, e revelar-se em, algo mais importante do que se pudesse imaginar: o abrir a porta a uma futura revolução político-cultural no Amapá. E, quem sabe, este abrir a porta resida no destinar ao povo o poder de decisão sobre a aplicação do dinheiro público (ainda que nos marcos de leis travosas advindas da AL), naquilo que se convencionou chamar orçamento participativo.
Bem assim, na liberdade de expressão através da mídia, esta, outrora, majoritariamente venal e servil ao sistema de dominação a achar-se em escombro.

Finalizando, em decorrência da revolução eleitoral 2010, já se percebe no horizonte o início do ressurgimento da sociedade civil, tendo no Instituto Raça Humana seu ponto de partida. E, a contra gosto dos contrarevolucionários, já se vê vindo no vento o cheiro da nova estação.

* Job Miranda tem formação sociológica pela Universidade Federal do Pará e é
graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual de Santa Catarina

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Comentários

5 comentários para “2010: a revolução político-eleitoral do Amapá (parte – l)- por Job Miranda”

  1. Colocação perfeita e suscinta dos fatos ocorridos nos últimos meses. O povo do Amapá ressussitou nessas eleições, ainda sobreviveram alguns “caciques” no Legislativo Amapaense; mas no Executivo, o Povo, e somente o Povo, foi capaz de mudar o rumo do Amapá. Colocando o volante e o GPS nas mãos de Camilo Capiberibe, um jovem com visão e amor pelo próximo, um jovem que se incomoda com a desigualdade social, um jovem que tem tudo para se tornar o maior Político da História do Amapá… desde que ele nunca esqueça que foi o povo, e somente o povo, quem o elegeu. E, é para esse povo que ele tem de governar… não para empresários, nem sanguesugas do dinheiro público. O volante representa o governo que foi colocado nas mãos de Camilo e o GPS representa as necessidades do Povo Amapaense para que ele nunca se perca nessa longa jornada rumo a construção de um Amapá Justo e Humano que iniciará em 01 de janeiro de 2011. Parabens Luciana, somente um texto como o seu para me motivar a escrever esse comentário. Que Deus a ilumine sempre e ao nosso Futuro Governador.

    Escrito por Dj Rick Santos | 23/11/2010, 10:29
  2. Olá Rick, que bom que gostou do texto, mas não fui eu que escrevi, foi o sociólogo Job Miranda, abraços e continue visitando o Blog.

    Escrito por luciana | 23/11/2010, 11:42
  3. Parabéns JOB, que texto primoroso, análise política da melhor qualidade,verdadeira,tocante,afinal me incluo entre os de fé a caminhada era árdua e sofrida mas com certeza LIBERTADORA, valeu toda a luta e você sabe o quanto foi sofrida, para ver a esperança brilhar no olhar das pessoas diariamente, confiantes de que o AP viverá dias melhores com o nosso Governador Camilo.Obrigado a você companheiro, deves saber porquê.

    Escrito por Sônia | 23/11/2010, 12:15
  4. É super importante compreender o momento em que vivemos. As caracterizações, o modus operandis, Os objetivos políticos e econômicos, Os agrupamentos políticos/ideológicos, e sobretudo, a verdadeira insurgência popular, decisiva à reoganização nas forças de esquerdas e a vitória de Camilo.
    Parabens ao militante social Job Miranda.

    Escrito por Lucivaldo | 23/11/2010, 19:28
  5. O INFERNO NO AMAPA VAI ACABAR DIA 1 DE JANEIRO QUANDO CAMILO ASSUMIR ESSE ESTADO PARA ELE SIM COLOCAR MORAL NESSE ESTADO QUE SE ENCONTRA ABANDONADO POR ESSES CORRUPTOS QUE ACABARAM COM O ESTADO, CAMILO E A MUDANÇA SIM E EU CONFIO SIM E O POVO TAMBEM ESTA DEPOSITANDO TODA A CONFIANÇA NESSE RAPAZ ELE FARA UM BOM GOVERNO SIM PARA O AMAPA QUE MERECE RESPEITO E UM ESTADO DIGNO DE SE VIVER E O AMAPAENSE BATER NO PEITO E DIZER EU SOU AMAPAENSE DE CORAÇAO TENHO CERTEZA QUE ISSO VAI ACONTECER SIM AQUI O AMAPA VAI SER ALGO HISTORICO.

    Escrito por erick | 9/12/2010, 1:59

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