// você está lendo...

Artigo

Por um senador de verdade – por Rup Silva

Antes de tudo nutro uma imensa má vontade com Sarney, confesso. Não lhe faço concessão. Sou extremamente rigoroso quando cobro coerência e compromisso com o Estado que lhe deu guarida num momento delicado de sua vida pública.

Por esta razão nada que se lhe cobre é demais. Sua atuação pelo Amapá, que lhe deu a honra de representar no Senado da República é tão pífia que em vários episódios pugnou mais pelo Maranhão, sua terra de verdade, que pelo nosso sofrido Estado.

Seu rápido e declarado amor por esta terra tinha o claro objetivo de ganhar a aceitação do cidadão, honrado com tão ilustre presença. Afinal tratava-se, bem ou mal, de um ex-presidente da República . A prometida força que teríamos no Senado nunca aconteceu. Não passou de um mote de campanha.

Seu gosto pelo caudilhismo revelou uma figura caricata dos velhos coronéis do nordeste, ainda hoje seu exemplo maior.

Assim como fez com o Maranhão, onde impera anos a fio, a ponto de transformá-lo no Estado mais miserável do Brasil, impõe suas vontades ao governo, as elites, aos poderes e por extensão ao povo do Amapá, tornando-os verdadeiros fantoches.

Ainda lembro, com pesar, uma grave heresia de Sarney quando o PSB deixou o governo em 2002. Perguntado disse que sonegara apoio ao governo socialista por não pertencer ao grupo político de Capiberibe.

Inadmissível tamanho equívoco vindo de um ex-presidente da República e figura notória do país. Deveria saber, e naturalmente sabe que seu papel no Senador é representar o Estado e com o que deveria se sentir honrado.

Por esta razão leio, entre estupefato e incrédulo, que o jovem Senador Randolfe Rodrigues [PSOL], em Brasília, fora recomendar o velho Senador que interceda para agilizar recursos e solução de inúmeros problemas do Amapá ainda hoje pendentes.

Um atrevimento da nova liderança do PSOL. Afinal quem pensa que é para ensinar seu ofício a alguém que exerce tanto poder na República e conhece de sobra suas atribuições?

Mais correto está o recém eleito governador Camilo Capiberibe [PSB]. Vai exigir de Sarney que assuma seu mandato de Senador pelo Amapá. Foi para isso que o povo amapaense lhe outorgou o mandato. Cabe, por isso, cobrar que trabalhe pelo Amapá como fazem seus colegas de Senado ao defender os interesses dos seus Estados.

Depois Sarney precisa provar que a prometida “força” no Senado não é um conto de vigário. O Amapá precisa sim, de alguém que trabalhe pelo seu desenvolvimento, de um Senador de verdade já que nossa bancada está incompleta.

POUCAS & BOAS

BOATARIA. Em Brasília como aqui a boataria sobre ministério e secretariado corre solta. A assessoria do novo governador, para acalmar pré-julgamentos e os mais açodados manda dizer que o tema inda não entrou em pauta.

LIÇÕES DE RUY BARBOSA. O patriarca da República  ensinava que “não mentir” é a lição fundamental do jornalismo. A mentira acontece, também, quando alguém se esconde para expor seu pensamento, uma prática odiosa que freqüenta nossos blogues, twittes e outros  meios de informação  virtual.

BREVE DEPOIMENTO. Esse breve depoimento vai para aqueles não conhecem esse modesto escriba. Comecei a escrever ainda jovem na velha e boa Voz Católica sob a batuta de Caetano Maielo quando aprendi a importância da imprensa e seu poder transformador social. Foi o meu primeiro contato com as velhas linotipos, Elson Martins e Helio Penafort, dois ícones do nosso jornalismo.

Foram partes importantes do meu longo aprendizado Alcy Araújo, Zé Maria de Barros e Pedro Silveira na antiga RDM e por aí afora.

Fui um militante estudantil atuante aqui e Belém, onde, para minha glória suprema fui preso no1º Comar, em plena vigência do AI-5 sob acusação de acobertar a fuga de Capiberibe da Santa Casa, eu,um modesto aluno de medicina,obra, em verdade, de Almir Gabriel, anos depois governador do Pará..

Minha relação com os Capiberibe vem desse tempo. E se tornaram mais profundas depois do meu casamento com Eliana, irmã da deputada Janete, esposa de Capiberibe e mãe de Camilo. Isto é público e notório. Ou não?

Construí uma vida profissional longe das coxias do poder, embora tenha militado no MDB de Ulisses Guimarães e tenha sido presidente do PSDB de Montoro e Mário Covas, seduzido pela social democracia vigente na velha Europa.

Trabalhei para ser uma pessoa independente e consegui. Não cabalo autoridades para ter cargos, embora os mereça muitas vezes. Meu espírito é livre. Falo tudo que penso e não peço licença a ninguém. Ninguém me manda.

Este recado vai endereçado àqueles que, sem coragem de assumir o que pensam, se escondem atrás do anonimato para falar do que não entendem e atacar a honra das pessoas.

RANDOLFE NA DIREITA [1]. É só uma opinião, não quer dizer que vá acontecer. Apesar do tamanho do mandato quero argumentar que o Senador pelo PSOL terá pouco espaço de manobra política, hoje ocupado concretamente pelo PSB e PT.

RANDOLFE NA DIREITA [2]. Sobrará à Randolfe a chance da abertura de uma “janela” na lei permitindo a mudança de partido. Sua volta ao PT, todavia, parece algo distante e insólito. Seu retorno vai contrariar velhas lideranças como Dalva Figueiredo. Ainda que seja grande o peso de um Senador em Brasília. Aqui não sei.

Quanto ao PC do B, caso aconteça, nenhuma influência terá que possa ampliar sua base nas esquerdas do Estado. Entenderam?

RANDOLFE NA DIREITA [3]. Diante dessa realidade só restará ao jovem eleito pelo partido de Plínio Arruda uma guinada à droit, onde haverá fatura de espaço e a quem deve, muito, sua eleição.

O SUPERBACANA. O sentimentalismo não pode influir na análise objetiva da historia. O desejo de Sarney, apoiado por Randolfe, era acabar politicamente com os Capiberibe e a oposição, abrindo espaço para que viesse ocupar. Ele, Clécio, Chellala tinham noção exata das conseqüências da obra sarneysista.

Quanto à votação “histórica” atribuída ao senador psolista, não custa lembrar outro feito histórico: o de Papaleo Paes [PSDB] em 2002, quando fez 140 mil votos contra o mesmo Capiberibe,  ex-governador então favorito. Na época também considerada um fenômeno.

POR QUE OS CAPIBEIBE? É importante e necessário saber por que os Capiberibes são citados todas as vezes que se faz qualquer análise sobre a política regional. Eles freqüentam a cena política há quase trinta anos, desde que retornaram do exílio mais precisamente. Não existem razões pessoais ou de parentesco ao citá-los.

QUESTÃO DE MÉRITO. A vida toda Capiberibe foi militante de esquerda. Primeiro no MDB de Ullisses Guimarães, depois no PSB que ajudou a fundar no Amapá. Trabalhou com Arraes em Pernambuco e no Acre com Nabor Silva. Ex-secretário de Agricultura, Prefeito de Macapá e governador por dois mandatos. Elegeu e gravitou sob seu comando vários políticos.

Não se pode exigir dos mais novos o conhecimento da história embora se arvorem em escrever sobre o que ignoram. Inadmissível é a manipulação maldosa desses fatos por quem os conhece e tem a obrigação de ser fiel aos mesmos pois a verdade é a essência do jornalismo.

…E NÃO SE FALA MAIS NISSO. É impossível aceitar que a retirada dos ônibus de circulação no dia da eleição [segundo turno] tenha ido para a zona desconhecida da informação. Trata-se do fato mais grave das eleições, um atentado ao exercício sagrado do voto, base dos regimes democráticos.

A sociedade exige uma resposta para que o mandante seja punido exemplarmente e com rigor para que o fato não se repita. Insisto: trata-se de um caso grave que não pode passar sem que as autoridades se pronunciem.

MUDANÇA DE ENDEREÇO. A PMM é o novo endereço da harmonia. Não se sabe se Roberto Góes [PDT] terá espaço para abrigar tanta gente como não se sabe também por quanto tempo. Sua sobrevivência política está por um fio ameaçada de cassação pelo TSE onde seus processos [seis ao todo] dormitam há dois anos. Góes herdou o espólio da harmonia, o que o transforma na sua maior liderança e candidato a qualquer cargo em disputa.

CAMILO VERSUS SARNEY. A versão dada por setores da imprensa ao encontro do recém-eleito Governador Camilo Capiberibe com o Senador Sarney é mentirosa. Camilo foi ao Senador em companhia de deputados solicitar medidas do Senado para facilitar o encaminhamento de emendas de bancada. Nada mais que isso.

Diferente da atitude de Randofe que, em tese, sozinho, foi pedir ao Senador que cumpra sua obrigação para com o Estado. Pelo menos é o que dizem seus aliados incomodados coma possibilidade de ter ido agradecer o apoio do Senador a sua eleição.

Por hoje é só.

Para conectar-se: rupsilva_ap@hotmail.com

Siga Luciana no Twitter : www.twitter.com/lucapi

Comentários

13 comentários para “Por um senador de verdade – por Rup Silva”

  1. Confesso que nesse momento considero esse artigo com uma certa carga de rancor, mas pela conjuntura um tanto justificável. Só me preocupo com as consequências de tentar dividir as forças políticas de esquerda no Amapá nesse novo momento. Randolfe pode até ter se aliado estratégicamente à direita pra avançar no seu projeto político, mas daí dizer que será alguém de esquerda é no mínimo leviano. Do contrário teríamos qe enterrar td história de luta desse moço que cresceu no movimento político popular de esquerda no Amapá. Temos que nesse momento prezar pelas alianças políticas que pensem num estado melhor pro povo, sem mágoas pessoais e pequenas que ficaram num processo eleitoral. Espero que Randolfe dê orgulho ao Amapá. Se migrar para direita derrubará até tudo que Freud defende sobre formação do caráter.

    Escrito por joelma bandeira | 21/11/2010, 14:17
  2. Dúvida: a qual “direita” Randolfe teria se aliado pra vencer? Sério mesmo, quem é a “direita” aqui?

    Escrito por Yashá Gallazzi | 22/11/2010, 11:38
  3. Valeu Rup, concordo com sua análise da conjuntura política, como sempre brilhante texto, inclusive me fez lembrar de uma imagem dessa campanha: o senador Rand chorando no palanque no ombro do Lucas foi demais pra mim….sem comentários.

    Escrito por Sônia | 22/11/2010, 18:31
  4. Respondendo ao queridíssimo Yashá Galazzi, que tive o enorme prazer de lhe ser professora e amiga na academia e estágio: é só você se reportar à origem da expressão “direita” e “esquerda” ao longo da história mundial.

    Escrito por joelma bandeira | 23/11/2010, 14:28
  5. Melhor ainda, “fessôra”! Se for pra fazer a discussão clássica, eu topo!

    Bora lá: qual candidato aqui do Amapá defendeu, ainda que de forma oblíqua, as bandeiras historicamentes identificadas com a chamada “direita”? Vamos ser mais preciso: quem defendeu o liberalismo econômico e a redução do Estado? Falávamos das alianças de Randolfe, correto? Pois bem, qual político que orbitou ao redor dele empunhou tais bandeiras? Nos discursos de quem nós podemos encontrar algum Mises, um pouco de Bastiat ou um tracinho de Ayn Rand?

    Francamente, acho que é uma análise furada. Nenhum político local pode ser considerado “de direita” simplesmente porque nada daquele ideário foi apresentado – nem na teoria, nem na prática.

    Escrito por Yashá Gallazzi | 23/11/2010, 17:33
  6. A discussão pode ser clássica ou conjuntural, mas pra você que gosta de política deve pensar que ter um mega empresário como vice governador num tem nada a ver com esquerda, ou tem? Não sou tão positivista quanto você, aliás sou bem mais revolucionária que muitos jovenzinhos deslumbrados com discursos emblemáticos e de base puramente teórica.

    E pra ajudá-lo vai mais uma aulinha rápida:

    Esquerda Direita
    Intervencionismo econômico Liberalismo econômico
    Economia socializada Economia familiar
    Estado grande Estado pequeno
    Igualdade de renda Igualdade de oportunidades
    Coletivismo Individualismo
    A vontade do povo está acima da lei A lei está acima da vontade do povo

    Escrito por joelma bandeira | 24/11/2010, 19:45
  7. Melhor

    Esquerda: Intervencionismo econômico; Economia socializada; Economia familiar; Estado grande; Coletivismo; A vontade do povo está acima da lei.

    Direita: Liberalismo econômico; Estado pequeno; Igualdade de renda; Igualdade de oportunidades; Coletivismo; Individualismo; A lei está acima da vontade do povo.

    Escrito por joelma bandeira | 24/11/2010, 19:58
  8. Então, com base só no que você disse, cadê a defesa do liberalismo econômico e do Estado pequeno?! Quem fez esse discurso? Lucas? Jaime? Na boa, não ouvi isso hora nenhuma! Pelo contrário: eles falaram abertamente em aumentar o tamanho do Estado!

    Meu ponto aqui não é defender Randolfe, as alianças dele ou qualquer outro político. Quero mostrar algo que venho dizendo há muito tempo: direita politicamente organizada e eleitoralmente viável simplesmente não existe no Amapá. Vou além: não existe no Brasil! E eu fundamento essa opinião no fato de que os dois esteios principais da direita (liberalismo e redução do Estado) simplesmente não terem defesa alguma no meio político.

    Sobre ter empresário na chapa, melhor ir mais devagar… Ou o governo de Lula foi de direita? Isso é só cair no truque fácil de rotular categorias. Não faço isso. Há mais esquerdistas entre os empresários brasileiros, do que em Cuba ou Pequim! Ou Grajew seria um direitista?

    Escrito por Yashá Gallazzi | 25/11/2010, 8:50
  9. Claro que a direita hoje não tem mais a mesma conotação que na Revolução Francesa, mas como disse Marx “A hitória do homem é a história da luta de classe”, e essa é a forma mais simplista de se conceituar direita (ricos)e esquerda (pobres)no Amapá e no país.
    A serviço de que classe está cada governo? Seja no Amapá, seja no Brasil?
    Reconheço que o governo de Lula não foi legitimamente um governo de esquerda, até por se tratar de uma composição de forças de partidos socialistas com liberalistas. Além do enorme lucro que os banqueiros tiveram nesse período. Mas certamente o estado se preocupou mais com os pobres que o governo do PSDB, que tinha na sua prática a privatização de órgãos públicos e o sucateamento das universidades, com vistas a locupletação de seus comparsas.
    Portanto cabe a cada um fazer seu julgamento e decidir de que lado quer ficar!!!
    Eu prefiro que melhore a vida do povo pra eu e meus filhos não nos tornarmos refém dos esfomeados por educação, justiça e pelo próprio “pão” de cada dia.

    Escrito por joelma bandeira | 25/11/2010, 16:53
  10. Mas a minha discussão ainda é essencialmente deontológica. Por mim, nem chegaria a analisar governo, porque falta o pressuposto inicial. Você diz que Lula se aliou a partidos “liberalistas”. Pois bem, qual?! Sério, cadê?! Cadê o partido que defende menos Estado e livre mercado pleno? Nem o DEM faz isso!

    E aí voltamos ao ponto inicial: não existe direita politicamente organizada e eleitoralmente viável no Brasil. Quanto mais no Amapá!

    Tô falando sem nenhuma ironia, viu? Na maior seriedade. Cadê Mises? Cadê Bastiat? Cadê Rand? Nada! Tão todos brigando pra ver quem é mais de esquerda.

    Olha a campanha presidencial que acabou: dia apóis dia, Serra e Dilma disputavam pra ver quam aumentaria mais o Estado! Em essência, as propostas de Serra eram mais de esquerda até, pois implicavam aumento dos gastos e, por conseguinte, do papel do Estado.

    Se perceber, paramos sempre no ponto inicial: Randolfe não pode ter se aliado à direita simplesmente porque direita não há!

    E não podemos dizer simplesmente que “os tempos mudaram”, porque há esquerdistas aos montes no Brasil. Facilmente identificamos partidos marxistas, trotskistas, social-democratas e até stalinistas! Mas cadê unzinho pra defender Estado mínimo e capitalismo?

    Escrito por Yashá Gallazzi | 26/11/2010, 9:12
  11. Bem, deontológicamente não há partidos de direita, porque o capitalismo em si já é o que tá posto. É o sistema dominante, nem precisa de defesa. Ou você quer defender os coitados banqueiros e multimilionários? O liberalismo e o estado mínimo sempre foi uma defesa dos grandes capitalistas. Os movimentos de esquerda se multiplicam na defesa do povo e de um capitalismo menos selvagem.
    Vc já leu O Capital de Marx?
    Ah, lembrando tbm que os defensores do capitalismo não defedem abertamente esses valores do capital. O próprio PL é liberal até no nome, ou não?

    Escrito por joelma bandeira | 28/11/2010, 21:26
  12. Já li, sim. Por isso nunca fui comunista, hehehe.

    Mas, voltando a falar sério: eu queria debater algo mais concreto do que essas tiradas como os grandes capitalistas defendem a direita. Bem, no Brasil de Lula, não… Taí o Eike que não me deixa mentir, né?

    Queria algo mais sólido. Por exemplo: em que momento no Brasil se defendeu a redução do Estado? Sério, cadê isso?! Repito o que já falei antes: cadê Bastiat, Mises ou Rand no ideário dos políticos ditos de direita?

    O PL tem liberal no nome?! Ah, mas isso não quer dizer nada, né? O PPS tem socialista no nome, mas não é socialista…

    Escrito por Yashá Gallazzi | 29/11/2010, 22:20
  13. Bom… Ambos tem suas razões… Só precisam parar de brigar e tomar uma cerveja e chegar num consenso…No mais, bom final de semana.

    Escrito por Silva | 3/12/2010, 13:01

Comentar

Memória

Categorias

Arquivos

Divulgue seu produto ou serviço aqui.


Fale conosco.