Existe um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. Tal é o aspecto que necessariamente deve ter o anjo da história. O seu rosto está voltado para o passado. Ali onde para nós parece haver uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única e só catástrofe, que não pára de amontoar ruínas sobre ruínas e as lança a seus pés. Ele quereria ficar, despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas do Paraíso sopra uma tempestade que se apodera das suas asas, e é tão forte que o anjo não é capaz de voltar a fechá-las. Esta tempestade impele-o incessantemente para o futuro ao qual volta as costas, enquanto diante dele e até ao céu se acumulam ruínas. Esta tempestade é aquilo a que nós chamamos o progresso.
Walter Benjamin, Nona Tese sobre a Filosofia da História.
Aproprio-me – um tanto distorcida e empobrecedoramente é verdade – da imagem angélica que Walter Benjamin construiu para nos oferecer um certo entendimento sobre a natureza da história e aplico-a neste artigo como suporte para um esforço de uma interpretação e uma compreensão do resultado das eleições que encerraram-se no dia 31 de outubro recém passado. Minha hipótese: O PSDB não apenas perdeu o bonde da história, como fez pouco caso de sua anunciação.
A derrota eleitoral da direita brasileira em todos os níveis, não deveria ter deixados surpresos certos setores da intelligentsia tupiniquim. Um rápido olhar panorâmico sobre o devir de nossa história política indicaria alguns sinais de alerta – pelo menos ao PSDB que hoje hegemoniza este setor da política nacional – a exigir correção de rumos e a saltar imediatamente do bonde tomado em 1988.
A direita brasileira durante toda a história republicana foi incapaz de construir pelo menos um partido político que legitimamente a representasse. Pusilanimemente sempre delegaram esta representação ou às forças armadas ou à grande imprensa.
Por outro lado, até o final da ditadura militar a esquerda buscou sob diversas experiências (por exemplo: a experiência anarco-sindicalista, a comunista, a socialista, as guevaristas etc.) construir partidos que representassem suas bases sociais e suas idéias sob um formato eminentemente vanguardista.
Assim, seja pelo arraigado patrimonialismo da direita, seja pela arrogância intelectualista da esquerda, as camadas populares se viam alijadas do processo político e das suas condições de sujeitos da esfera pública.
Era este o quadro – toscamente esboçado aqui – que se apresentava às forças políticas ao final da ditadura. Foi assim que sindicalistas, intelectuais, religiosos, políticos e militantes de esquerda de todos os matizes começaram a discutir a construção de um partido que rompesse com a tradição instrumentalizadora – de esquerda e de direita – das massas populares. Ao final deste processo uns fundaram o PT e outros preferiram apostar no PMDB, estes em 1988, frustrados com o conservadorismo deste partido, fundaram o PSDB.
Em um primeiro momento estes partidos (PT e PSDB) lutam pela hegemonia no campo da esquerda: um partido investiu fundamentalmente na capilaridade e organização social, e o outro na formulação intelectual; o curso da vida política levou-os a um campo maior, levou-os a polarizarem a luta pela hegemonia na construção do destino do País, sob suas lideranças acomodaram-se a tradição de direita (PTB/PMDB e UDN/PLF/DEM) e a de esquerda (PC do B/PSB e PCB/PPS/PV) flutuando entre uma hegemonia e outra uma serie de outros partidos; excluo deste esquema simplista, o PSTU, coerente com um extremismo de esquerda, nega legitimidade tanto ao PT como ao PSDB no campo da esquerda.
O jogo desta disputa levou o PSDB a abandonar o discurso original social-democrata e a assumir o ideário liberal, o partido que desde seu nascedouro tinha restrições em abrir-se a participação popular, abriu mão definitivamente da relação efetiva e orgânica com os movimentos sociais e, por via de conseqüência, retomou a anacrônica idéia de vanguarda. Talvez seu erro estratégico mais grave: descuidou em ampliar sua base territorial e conformou-se com o localismo, com a centralização de suas ações no sudeste brasileiro, muito particularmente em São Paulo, por conta disso abandonou a construção de um projeto verdadeiramente nacional e contentou-se com um arremedo de projeto focado e referenciado unicamente na realidade paulista.
Sobre o abrigo de seu refinamento intelectual e de sua pujança política e eleitoral no estado mais rico da nação, recolheram-se coronéis medievais e modernos, jovens fascistas e liberais jurássicos, fundamentalistas religiosos e a grande mídia – extremamente desconfortável na hipócrita condição de independência, saudosa dos idos ditatoriais, a ponto de um de seus principais expoentes negar a existência histórica da ditadura militar, cunhando o infame neologismo ditabranda – enfim, sob o critério de igualdade o que há de mais reacionário encontra hospitalidade no PSDB.
Nada demais sob um projeto organizarem-se as mais diversas tendências, aliás, é esta uma das condições da democracia; o problema é que o PSDB em vez de honrar sua origem social-democrata, o capital de oito anos de presidência da república, abriu mão de seus valores e embarcou na vulgaridade, na burrice e na estupidez boçal do preconceito e da discriminação, no liberalismo mais acrítico e radical. O PSDB sempre arrogantemente cioso do seu intelectualismo deixou-se levar docilmente pelo mais néscio, pelo mais violento, pelo mais despolitizador, pelo que de mais anti-republicano agonizava na cena política brasileira.
As vitórias do PT nesta década que se encerra não ocorreram por acaso; em 1980 a escolha por um partido de massas e não de vanguarda; por um partido organicamente ligado à sociedade civil e não de quadros; por um partido estimulador da autonomia dos setores populares e não paternalista; por um partido defensor de um projeto de radicalização da democracia, e não conformado apenas com sua estruturação formal foi o que o sustentou contra o ataque mais feroz já sofrido por um partido na história brasileira.
Em 1980, grande parte dos intelectuais e lideranças que viriam a fundar o PSDB em 1988, escolheu seu rumo. A longa experiência de erros organizacionais dos partidos de esquerda e o mau-trato das elites com povo exigia um partido, senão sob comando popular, mas sensível e influenciável pelas camadas populares. Os anúncios da História exigiam um novo partido a engajar-se em um projeto que trouxessem as camadas populares ao proscênio da vida pública brasileira; agora como atores principais, como sujeitos de seus destinos e NUNCA MAIS COMO FIGURANTES. De costas para esta anunciação o PSDB depara-se hoje com uma única e só catástrofe, que não pára de amontoar ruínas sobre ruínas e as lança a seus pés.
Aos meus companheiros de partido e de outros partidos, aos meus companheiros de projetos sociais que a partir de 01 de novembro assumiram funções na continuidade da construção de uma sociedade cada vez mais igualitária, justa e livre exorto a aprender com o erro alheio e jamais menosprezar os anúncios do arcanjo da história.
Dorival da Costa dos Santos (Nei)
Professor da UNIFAP, Advogado, Doutorando em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense.
E-MAIL: nei.ap@bol.com.br
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