Euclélia Américo não foi uma retirante do Maranhão famélico, do Maranhão das casas cobertas com folhas de babaçu e escolas sem teto, sem parede, sem esperança, produzido pelos mandarins da política maranhense.
Seria um erro dizer que pranteada médica veio para o Amapá tangida pela mesma pororoca de amargura que espalha os filhos do Maranhão pelo Brasil e pelo mundo desde Vitorino Freire até José Sarney, que ela detestava.
Infelizmente o Maranhão continua sendo o estado que mais produz indivíduos que desistem da própria terra para buscar melhores dias em outros brasis mais esperançosos.
Neste contexto não se pode incluir o caso de Euclélia Américo, que foi de opção mesmo pelo povo bom e hospitaleiro do Amapá, e não em função das perspectivas que o Maranhão não tinha como lhe oferecer, digamos.
Decidiu então deixar São Luís da aristocrática Rua do Norte, onde morava sua família de classe média alta, para dar de si tudo que podia oferecer a um povo que soube admirá-la na inteireza da sua estatura moral e intelectual.
Ainda jovem e recém-formada, “pisou no Macapá”, como dizem os que aqui chegam provenientes de outras regiões do País; e não veio de mãos abanando nos pedir alguma coisa.
Desceu aqui trazendo na mão direita o canudo de papel obtido na Faculdade de Medicina da UFPA, acrescido das especialidades em ginecologia e obstetrícia. Foi morar no Pensionato, depois construiu uma bela casa na Avenida FAB, conheceu Alice Gorda, apaixonou-se pela Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, baixou no marabaixo, fez amigos, muitos amigos.
Em 1960 ingressou no corpo de servidores da Secretaria de Saúde, com passagem pela LBA, e trabalhou duro por mais de 40 anos. No governo de João Capiberibe foi nomeada para a árdua missão de diretora da Maternidade Mãe Luzia, em crise.
Não fosse competente e determinada, Euclélia poderia ter fracassado na tarefa que lhe fora confiada, mas a história está aí para “depor” a seu favor ao se pensar numa época em que a saúde pública do estado precisava virar o jogo contra a inoperância do sistema e a mortalidade infantil.
Foi uma batalha santa, lembro bem. Euclélia enfrentou o atraso, a preguiça, a má vontade daqueles que não queriam serviço bem feito, saúde pública administrada para atender a sociedade sem fila, sem procrastinação, sem desrespeito ao cidadão.
Por causa disso ganhou a fama de intransigente, fez inimigos, mas foi adiante; fez valer princípios éticos e morais necessários ao bom desempenho do serviço público, marcas da sua atitude transparente e alva como os lençóis maranhenses, um dos exuberantes cartões postais da sua terra de nascença.
Ninguém que conheceu Euclélia Américo pode dizer que fora uma mulher que viveu para passar em brancas nuvens aonde quer que levasse suas convicções, e a sua presença forte! Claro que não! Euclélia viveu para semear bons exemplos na família e no trabalho.
E não economizava, se fosse preciso, tanto que bateu com força no corporativismo existente no seio da classe médica do Amapá! Culta, estudiosa, bem informada, tinha o condão da polêmica, a inquietação cívica dos moços e ousadia dos inconformados diante do tempo perdido, das injustiças, e do preconceito.
Eis a Euclélia que não podemos esquecer, uma mulher muito especial, a quem devemos cada gesto de boa vontade praticado por esta terra que abraçou com seu trabalho diuturno, dedicado, competente…Quantos destinos, quantos meninos foram trazidos para a vida na palma das suas mãos?
Dignamente, até o dia 21 de maio quando foi vencida pelo câncer aos 72 anos de idade, manteve-se fiel à áurea de amapaense de coração, de mulher que deu ao Amapá, sem se arrepender, quarenta anos de sua vida – excluídos, claro, os sentimentos pequenos daqueles que a fizeram sofrer ao longo do seu caminho de luz. Descansa em paz, amiga.
João Silva sempre leio seus textos, meu nome Marcelo de Sá, sou Guia de Turismo nascido e criado em Macapá e hoje conseguir um tempo para escreve esse pequeno comentário,minha mãe era amiga da Dra. Euclélia quando estava lendo seu texto lembrei dos comentários que minha querida mãe fazia a respeito da Dra Euclélia como carinhosamente era conhecida pela comunidade. Ajudava bastante os mais pobres e espero que os futuros médicos da Unifap tenham a Dra. Euclélia como referencia como pessoa e profissional.
um grande abraço
João, vc como sempre impecável nas suas palavras!
João, na condição de irmão da Euclélia só tenho a agardecer suas palavras de conforto e apreço, muito ainda abalado com o acontecimento da morte da minha irmã, quero aqui registrar que você e todos os seus familiares sempre estiveram no mais autor patamar de reconhecimento de pessoas de bem temos como exemplo seus pais, como os nossos o meu de da Euclelia sempre nos educaram para servir o bem.
OBRIGADO JOÃO
Gostaria apenas de pedir que fosse feito algumas correções, primeiro, que minha mãe (Euclélia Américo) não morreu de câncer, pois ela nunca teve essa doença, e sim de derrame, e não morreu no dia 21 de maio, mas sim no dia 20 de maio.