Às vésperas do natal de 2001, o jornal mineiro Hoje em Dia publicou uma crônica intitulada “Toalha de restaurante alemão”, do colunista Eduardo Almeida Reis (http://migre.me/zPrP), que causou a mesma polêmica do texto “Amapá, uma abstração”, de Rogério Borges, publicado na seção “Crônicas e Outras Histórias”, edição de 07/04/2010, do até então desconhecido jornal O Popular, de Goiânia (www.opopular.com.br/).
Sem entrar na polêmica sobre a forma do texto, se crônica ou não, vejo na abstração do Reis sobre o Amapá o humor nada sutil da Toalha mineira. Nada a ver com as provocações imbecis do Mainard, um fascitóide idiota, e com o ensaio “Abraxas: uma abstração e outros absurdos literários”, de Damnus Vobiscum, cuja relação fica somente no título.
Por isso causou-me estranheza ninguém fazer referência ao texto de 2001, que motivou o Ministério Público amapaense a promover ação contra o jornalista mineiro, em que pedia uma indenização de R$ 50 milhões por danos morais ao povo do Amapá (não sei que bicho deu a ação do MP).
Em seu blog (http://rogeriopborges.blogspot.com), o autointitulado “jornalista por vocação” se defende das acusações que lhe são feitas por amapaenses e se queixa dos ataques pessoais que vêm sofrendo. Tem razão. Muitos comentários postados em blogs que divulgaram seu texto são reveladores de um chauvinismo cego, além de uma uma grosseria típica de ignorantes.
Mas é difícil aceitar seus argumentos literários em defesa de um texto que, mesmo admitindo-se como crônica, expôs a falta de humor e a crítica mordaz presentes, por exemplo, nas crônicas de um Luis Verissimo, quando aborda temas delicados, que envolvem questões étnico-raciais, culturais e costumes sociais e políticos.
Ao longo da história da humahidade, escritores e artistas utilizaram o riso como arma de combate à opressão e injustiças. É a sátira que permite a abordagem de questões que não poderiam ser de outra forma, por se situar no limite entre a tensão política e a banalidade social – duas forças que se contrapõem – fazendo transbordar o riso em diferentes formas.
Para isso, no entanto, é preciso que o escritor/artista conheça profundamente a realidade criticada e tenha domínio da forma do gênero que utiliza, seja uma crõnica, um conto ou a poesia. A de Gregório de Matos, exemplo de sátira barroca, ao apontar erros e defeitos vigentes à época através do humor, manifesta uma profunda relação com a terra em que habita. A sátira de Gregório busca a afirmação de uma brasilidade em oposição a dominação (identidade) portuguesa.
Se eu esculhambasse com o Amapá – do tipo; sabe por que o Amapá não afunda? Não, é porque merda não afunda – outros amapaenses ririam disso. A razão é simples, estamos situados em um mesmo contexto, o outro amapaense entenderia as razões da minha chacota, mesmo pegando pesado. A linguagem de baixo calão e o chiste estão entre as manifestações que surgem através da sátira. Quem viu a comédia de costumes Ver do Ver-O-Peso, do grupo paraense Experiência, sabe do que estou falando.
O nosso Borges não entendeu nada disso. Mexeu com forças que se opõem, para ele desconhecidas. Mesmo dando todos os descontos possíveis à forma e ao conteúdo de seu texto, para os amapaenses não passa de um “estrangeiro” que fala mal da terrinha, sem com ela ter alguma forma de relação que justifique, incluindo o plano emocional, a esculhambação; mexeu com forças telúricas e identidades conflitantes de um povo que se sente historicamente marginalizado e objeto de preconceitos por brasileiros de outros estados. Vistos somente através de fatos negativos.
Tal o Géografo de Itambé do Mato Dentro (pseudônimo utilizado pelo colunista mineiro), Rogério Borges pode botar a culpa por tudo no Sarney e nos surrealistas Marimbondos de Fogo que o elegeram senador pelo Amapá.
Mas não escapará do destino dos aprendizes de feiticeiro: de tornar-se um imortal da Academia dos Contadores de Piada sem Graça.
Por Herbert Marcus, jornalista.
Fiquei surpreso com a supervalorização do Ministério Público e da Procuradoria do Estado com relação ao que escreveu esse jornalista goiano (que nem seu nome eu sei, de tão insignificante). Alguém escreve algo e é alvejado dessa forma? Pergunta-se: os que fazem misérias? E os que saqueiam? E os que roubam? E os que compram votos de miseráveis mantidos em currais eleitorais chamados baixadas/palafitas? Há alguma ação regressiva da Procuradoria contra políticos corruptos que não falam mal, não escrevem mal, mas que fazem tanto mal ao Amapá e ao seu povo?! Sejamos mais honestos, mais críticos, mais coerentes e menos hipócritas! Ao jornalista preconceituoso todo o nosso desprezo e indiferença. Aos órgãos estatais que devem cuidar dos reais interesses populares nossa atenção redobrada!
Será que o ministério público e a procuradoria entrarão, também, com uma ação contra a rede globo por mostrar, não através de crônica,a situação da saúde na “ilha de lost”?
Ontem o Amapá ficou mais conhecido pelos brasileiros,antes fosse pela bricadeira de mau gosto do Rogério.