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Sobre segurança e lavadores de carros – por Tenente-Coronel Corrêa

Com formação e especialização da área de segurança pública (ESPECIALISTA EM GESTÃO ESTRATÉGICA EM DEFESA SOCIAL/UFPA) não posso ficar apenas prendendo infratores e achar que a minha missão está sendo cumprida a contento. Apenas com essa visão estaria sendo um profissional ainda meio amador. Não posso apenas ficar salvando os que se lançam do precipício (administrando apenas as consequências) deixando de contribuir para amparar os suicidas ainda no momento da decisão de pular (agir nas causas da violência).

E é com essa vontade de contribuir com os problemas em sua gênese que quero tocar numa causa de violência (que também tem outro viés) que é a falta de geração de empregos lícitos para pais de família e para muitos jovens que a cada ano estão aptos p ara o mercado de trabalho.

Essas pessoas precisam de cidadania e cidadania só de dá de tiver pelo menos uma fonte de renda lícita para suprir suas necessidades mais urgentes (alimentação – ninguém vive sem comer e vai morrer; vestuário – se alguém for encontrado pela polícia na rua, nu, será preso por atentado violento ao pudor).

Duvido você que vai ler este apelo viver sem dinheiro?! Principalmente se tem um filho para criar. Porque até filho (falta de pagamento de pensão alimentícia – que é paga com dinheiro) leva o pai para a cadeia. Já vi vários devedores de pensão (e alguns desempregados) parar na cadeia. E um deles me confessou: “eu não tenho como pagar só se for roubar”.

Este é o retrato da falta de empregos no Amapá.

E, na contramão da dor e do desespero desse e de muitas pessoas que lhes faltam cidadania, li numa reportagem de um jornal local (parece que a reportagem estava para divulgar boas aà �ões do poder público) reportando sobre o fechamento de várias lavagens de carro pela cidade.

Dizia a reportagem que estavam todas irregulares (até concordo) mas não concordo em fechá-las. Ainda sob a acusação de o dono (por contratar pessoas irregularmente; de poluir o meio ambiente, etc) e seus trabalhadores (por serem crianças e adolescentes – mas não proporcionam a seus pais, muitas vezes, as condições básicas para criar essas crianças e jovens com dignidade – se é que um lavador de carros não pode ter dignidade) serem criminosos.

Fechá-las é ato muito extremo. Pode ser um incremento a mais para o aumento da violência. Aliás, o próprio fechamento já é um ato de violência. Um ato insensato do poder público que ao contrário, deveria somar com esses geradores de emprego lícito, mesmo que seja insalubre, mas é melhor trabalhar assim, do que ser um traficante ou um aviãozinho de drogas ilícitas.

Seria mai s relevante para a sociedade se o poder público pudesse incrementar mais um, mais esse, empreendimento que gera emprego e renda para centenas de pessoas (pais e filhos de família) com empréstimos; informações técnicas (cursos de formação); informações sobre a preservação ambiental (utilização de desinfetantes, sabão, água, etc) e a legalização do empreendimento (com taxas promocionais, incentivos fiscais, impostos reduzidos, etc) para essas pessoas passem de bandidos e criminosos para empresários geradores de empregos lícitos e seus empregados se sintam incluídos no meio social com um emprego que lhes dê dignidade e não sejam excluídos e jogados na rua da amargura, simplesmente porque queriam trabalhar – sem muitas vezes outras oportunidades, e buscar seu dinheiro lícito (resultado de seu suor) para suprir suas necessidades e de seus familiares (até mesmo dos pais e mães desempregados ou já sem forças e possibilidades de prover seu sustento e de sua prole).

Posso prender, e assim estaria agindo como profissional – a serviço do Estado – aqueles que conscientemente praticam um crime (corruptos, colarinho branco, etc), mas que não estão marginalizados e que o Estado dá todas as possibilidades de ser um cidadão honesto. E, não posso prender, e dizer que sou um profissional, se prender apenas os marginalizados, e o pior, que o próprio Estado os marginalizou!

TCel CORRÊA

ESPECIALISTA EM GESTÃO ESTRATÉGICA EM DEFESA SOCIAL/UFPA.

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Comentários

3 comentários para “Sobre segurança e lavadores de carros – por Tenente-Coronel Corrêa”

  1. Concordo em gênero, número e grau. O poder público tem o dever de promover o trabalho lícito, que gera benefícios à sociedade, que paga impostos e possui responsabilidade e regras de funcionamento; e combater o ilícito, que não presta contas e nem segue o código de defesa do consumidor.
    Mas é uma visão míope combater o trabalho ilícito simplesmente combatendo os trabalhadores ilícitos. O governo (qualquer governo) estaria prestando um desserviço ao agir neste sentido. Mais inteligente seria levar os trabalhadores para a licitude.
    O melhor para a sociedade (e não somente para estes trabalhadores), seria que fosse criado um plano para trazer os estabelecimentos para a legalidade, a abertura de empresas ou cooperativas, abertura de linha de crédito para aquisição de equipamentos e treinamento para os profissionais, tanto técnico quanto legislativo.
    Qualquer consultor do SEBRAE tiraria essa tarefa de letra.
    Por outro lado, um simples fechamento seria uma ação imediatista que não traria benefícios nem para o governo (que perderia em impostos), nem para os trabalhadores (que perderiam seus postos), nem para a sociedade (que possivelmente ganhariam mais transtorno).

    Escrito por Luciano Pinheiro | 6/02/2010, 13:37
  2. Perfeita analise Ten.Cel Corrêa!!!
    Hoje no Amapá é elevado o índice de jovens em vulnerabilidade social, muitos já com família constituida e o desemprego contribui nesta situação de maneira decisiva para que os mesmos ingressem no mundo da criminalidade.A maioria, se não todos nós jovens queremos apenas uma oportunidade. A cada ano as faculdades formam centenas de jovens cada vez mais capacitados, no entanto, o mercado está cada vez mais restrito, e muitos jovens como eu ficamos às margens. Principalmente no cenário local onde o que prevalece é o Q.I(quem indica).Fico muito triste quando vejo os ambulantes da capital serem presos ou terem suas mercadorias apreendidas, pois essa é uma oportunidade da vida a muitos pais de família que vão para rua batalhar o pão de cada dia. Politicas públicas de inclusão e qualificação devem ser repensadas, para que não tenhamos que acompanhar sentados como meros expectadores o ingresso de mais jovens e pais de família ao mundo do crime ou mesmo aumentando o número de suicidas. A segurança pública deve ser feita não apenas na repressão, mas também, na prevenção e isso significa melhorias e garantias de direitos básicos como a saúde,educação,lazer e trabalho.

    Escrito por Greice Souza | 7/02/2010, 22:55
  3. Concordo plenamente consigo. Eu tambem gostaria de ajudar estes “meninos da rua” como sao vulgarmente chamados (pelo menos em Mocambique), criando uma associacao de lavagem de carros como forma de criar um sustento para ele e para a familia. Em paralelo incentivar que estes mesmos frequentem uma escola para o melhoramento das suas vidas. O que acontece aqui em Mocambique, e que o Governo nao da qualquer tipo de valor a estes meninos . Nao cria condicoes para que eles possam ter um emprego garantido e muito menos apoio financeiro junto dos bancos para aquisicao de algum equipamento.

    Escrito por cassamo | 9/04/2010, 9:10

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