Baby,
Creio que posso dirigir-me desse modo, tratá-la de maneira álacre e carinhosa, porque você é jovem e tal tratamento se aproxima mais com seu jeito de ser, sobretudo com a sua maneira de se expressar. Ademais, eu não só permito que me trate daqueloutro modo, como me sinto lisonjeado por assim fazê-lo.
Li a sua redação que você escreveu em forma de carta, e que se dirigia a mim. Para usar de uma linguagem peculiar, e habitual de que você tanto gosta, digo sem medo de ser feliz: achei muito dez o que você escreveu. E falo sério, especialmente no que diz respeito ao uso escorreito da língua portuguesa. O que me surpreendeu foi da mistura equilibrada do coloquial com a linguagem padrão, sem amatular-se a vícios corriqueiros da língua.
Baby, você mandou bem. Aliás, você está em boa companhia, sabia? Luis Fernando Veríssimo, escritor de nomeada, é um afeiçoado por essa forma de linguagem. Basta ler suas crônicas diárias que dali vão saltar aos olhos expressões desse naipe, que ao invés de apoucar a qualidade da língua vernácula, dá-lhe ainda mais pujança à expressividade.
Há quem possa recriminá-la, é verdade. Alguns podem até torcer o nariz, desconfiados; mas é porque vem de você, uma adolescente que ousa dar seus primeiros passos justamente por essa praia, um terreno movediço; e, portanto, perigoso para quem não está habituado a freqüentá-lo.
A propósito, a expressão “praia” que você emprega em sua redação, foi fortemente rechaçada, durante o julgamento do qual participei, por parecer gíria ou modismo. E não é. Semanticamente tem o mesmo sentido de “espraiar”, de cujo uso vários escritores consagrados já experimentaram.
Ainda que você tenha sido a vitoriosa do concurso de redação promovido pela Biblioteca Pública, seu texto carece, naturalmente, ainda de alguns ajustes, mas você demonstra está no caminho certo. Até porque você confessa que a literatura é seu melhor entretenimento, sua mais nova paixão. Parabéns! Agora, procure correspondê-la, que a reciprocidade será compensadora.
Você inaugura uma fase que é o resultado daquilo que exercitou. Ora, escrever é uma conseqüência de quem lê; e escrever bem é resultado também de quem lê melhor ainda, de quem absorve bem a leitura de um bom texto. E você me parece que busca o encontro desses dois sabores indefectíveis, o de ler e escrever – queijo e goiabada. Bacana esses casais ilustres: Romeu e Julieta; açaí e camarão; Batman e Robin… Ops!, desculpe a insinuação. Batman e Robin já é sacanagem…
Pois bem, se eu tenho que dar algum ensinamento alguém sobre literatura, não há de ser outro: leia. Mas não finja que lê, não minta pra si mesma. Ao terminar a leitura de um livro não se pergunte se você gostou do livro, pergunte se entendeu. Aprenda a não odiar aquilo que você não conquistou, ou não entendeu, ou ainda não se achou capaz de entender.
Tente outra vez, nunca é demais ler outra vez o mesmo livro. Talvez descubra o prazer da leitura justamente ao repeti-la. Um episódio que você, por descuido, passou batida, num lapso de leitura; distraiu-se no momento crucial da trama, e que no desfecho faltou a você o entendimento, talvez na segunda vez encontre esse elo da cadeia, e encontre também aí o prazer da leitura.
Nunca é demais a leitura de um livro. Tenho um amigo escritor que já leu trinta vezes o livro “O velho e o mar”, de Hemingway e que me confessou: “todas as vezes que eu o leio, inauguro um novo prazer na leitura, parece que faço tudo pela primeira vez.”
Considero a escrita a invenção mais importante da humanidade. Sem ela, o mundo seria pior e inverossímil. Portanto, querida, vá fundo. Curta, à vontade, seu prazer com a leitura juntamente com seus shoping center, praia, cinema e rock and rool. Pode se espraiar nesse deleite. Depois me conta, baby. Beijos.
Ademir,
li a carta da Hellen sobre o seu conto. Li sobre a tentativa de roubar o primeiro lugar. Li sua carta à Hellen.
Pois bem, tenho uma bebê chamada Helen (só com um L), bebê mesmo, dez meses e vinte dias completos hoje. Meu desejo é que ela também descubra o prazer da leitura, nesses tempos de tantos entretenimentos que emburrecem. Veja: assistir um filme sobre uma montanha misteriosa nunca será mais emocionante do que ler “A montanha Encantada” de Maria José Dupré (mesmo que seja o mesmo texto). A leitura é libertadora, tu o sabes.
Parabéns pela homenagem.
Felicidades!
Joel