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Artigo

Carta ao escritor Ademir Pedrosa* -Por Hellen Gonçalves

Ademir, querido:
Permita-me tratá-lo assim. Não me tome por atrevida. Li seu artigo em que você se dirige assim, desse modo, ao poeta Vinícius de Moraes. Achei muito dez e resolvi copiá-lo. Aliás, você mesmo disse que as expressões de tratamento, “caro” e “querido”, são palavras sinônimas, e que tanto faz usar uma como a outra. Escolhi a que me pareceu mais lírica. Permita-me então, querido?

Sou uma estudante adolescente e descobri na literatura o meu melhor entretenimento. Claro que gosto também de shoping-center, boate, cinema, samba e rock-and-roll, afinal essas coisas fazem parte do meu universo… de minha praia, para usar de uma expressão que faz parte também do meu vocabulário. Mas como eu dizia, a literatura me conquistou, virou paixão.

Eu me diverti à beça com o seu conto, que além de engraçado, é envolvente. A história do seu conto anda acontecendo lá por casa, sabia? Minha irmã caçula e nossa priminha completaram recentemente dez anos de idade cada uma, e conquistaram o direito de ir de banco da frente do carro. Minha mãe é quem transporta as crianças à escola.

Pronto!, é aí que começa a desavença. Só faltam se pegar pelos cabelos. Cada uma se acha no legítimo direito de sentar-se no banco da frente. Como só pode um passageiro ocupar esse lugar, minha mãe teve que tomar uma providência.

Quando elas não chegam a um acordo, o lugar é decidido no par-ou-ímpar. Eu que sugeri a ela, baseada no seu conto. E a vencedora vai toda espevitada, desdenhando do azar da outra; e a outra, coitada, tem que amargar a humilhação de ir de segunda classe; ir lá atrás, como se ali fosse o fim do mundo… até parece! Enquanto uns se digladiam pelo o banco dianteiro do carro, outros querem exatamente o contrário.

As autoridades, por exemplo, só andam no banco detrás. A madame rastaqüera com seu cãozinho poodle a tiracolo, também; sem falar nas celebridades em suas limusines, vão lá no fundão. O ser humano é mesmo conflitante, e seu conto retrata com bom-humor essa realidade. É um presente ao leitor, faz a gente gostar de ler. Obrigada, querido, por tê-lo escrito. Amei de paixão.

*Redação vencedora do concurso literário promovido pela Biblioteca Pública Elcy Lacerda. O tema era escrever sobre um escritor amapaense e sua obra, Hellen escolheu o meu conto “A carona”. A diretora da biblioteca, Ana Cristina, numa manobra de esperteza, tentou surripiar, juntamente com Paulo Tarso, Fernando Rodrigues e Zenaide Duarte, o 1ºLugar da redação que vai acima. Eu e o Prof. Munhoz que também fazíamos parte do corpo de jurados, não permitimos. Em represália, até hoje não pagaram a premiação à estudante Hellen.  Quando eu escrever o meu “Honoráveis”, vou contar esta historinha de bicho-papão tim-tim por tim-tim…

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