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Aldeia Cultural

Senado homenageia amapaense idelizador da BArca das Letras


Jonas Banhos se define assim: “leitor assíduo, mochileiro do voluntariado e do amor, educacionista, educador popular (seguidor de Paulo Freire). Formado em Ciências Contábeis pela UNAMA (Universidade da Amazônia). Graduando em Direito pelo UNICEUB (Centro Unificado de Brasília). Pós Graduado em Auditoria pela Universidade de Brasília – UnB. Servidor Público há 14 anos

Como e quando começou o projeto NossaCasa?

Luciana, tudo começou em 2006, assim que retornei para Brasília de uma viagem de férias mágica, de ônibus, mochila nas costas, até Machu Pichu (Peru), cortando a pobre, mas linda, Bolívia. Esta viagem me fez vivenciar as feridas abertas da América Latina, que Eduardo Galeano em seu memorável e atual livro, escrito em 1972, nos fala, bem como um pouco também do que vivenciou Che Guevara, quando cortou a América do Sul numa motocicleta. Bem, voltei daquela viagem, simplesmente, transformado interiormente e consciente de que eu precisava fazer a minha parte neste mundão de possibilidades, se eu realmente quisesse viver num mundo mais justo, solidário, humano. Entendi que não poderia mais viver só no meu mundinho de conforto em Brasília, fazendo um trabalho voluntário aqui e acolá. Era preciso ser mais audacioso, afinal, a vida foi e tem sido tão generosa comigo. Daí comecei a me preparar espiritual e economicamente para tirar meu ano sabático. Então, assim que completei meus cinco anos de trabalho, junho/2008,  no meu atual emprego (Governo do Distrito Federal), saí imediatamente de licença, não remunerada, voltei a morar em Macapá e comecei a colocar em prática aquilo que era um projeto, e, que, no decorrer do tempo foi se transformando no que é hoje, uma filosofia de vida, um jeito de ser diferente, uma atitude de agir pela coletividade, de cuidar d@ outr@, do nosso “todo ambiente”.

Somos uma união de pessoas, diferentes, que vivenciam e praticam a simplicidade, que fizeram uma opção voluntária pela simplicidade, como nos ensina o teólogo e escritor Leonardo Boff. A NossaCasa de Cultura e Cidadania, é um movimento social-cultural-ambiental que vivencia, na prática, sentimentos universais, tais como liberdade, amor, alegria, criatividade, cuidado, simplicidade, voluntariado, respeito, tolerância, ética, transparência, retidão, honestidade, paz, os quais nos foram ensinados por nossos antepassados(avós, pais, ti@s). Esses sentimentos parecem perdidos nas nossas inchadas e maltratadas cidades, mas são bem vivos no meio da nossa adorável floresta amazônica, junto aos nossos povos tradicionais que vivem às beiras dos rios da Amazônia, nas nossas comum unidades. Mas assim, não ficamos falando isso por aí, pregando, nossas ações revelam exatamente o que somos e o que acreditamos.

A NossaCasa “vive da gratuidade e da disponibilidade,  vive da capacidade de enternecimento e de compaixão, vive da honradez em face da realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente desta realidade. Quebra a relação de posse das coisas para estabelecer uma relação de comunhão com as coisas”, como bem coloca Leonardo Boff.

Vocês têm um trabalho de fazer centros de leitura nas paradas de ônibus, esse local foi recentemente destruído pela prefeitura. Você vê essa atitude como de desprezo à literatura e à cultura?

É verdade, são nossos Pontos de Leitura. Começamos a partir de 03/09/2009 a ocupar as paradas de ônibus de Macapá (a primeira na Av. Ernestino Borges, entre Ruas General Rondon e Eliezer Levi; e a segunda na Av. FAB, em frente à Prefeitura), como é feito em Brasília/DF, pelo Açougue Cultural T-Bone (idealizado por Luiz Amorim). Transformamos paradas virtuais (sem abrigo, sem placa, sujas, sem bancos, cheias de mato) em Paradas Culturais.  Limpamos o local diariamente, na medida do possível, decoramos com cartazes educativos, mensagens positivas, fazemos intervenções culturais urbanas e sempre realizamos rodas de leitura por meio da Rádio Comunitária NossaCasa(um megafone), a única de Macapá que incentiva a leitura. E tudo é feito do nosso jeito simples e amazônico de ser, colocando livros dentro de canoas, cestos de açaí, esteiras, ninho de pássaros etc. Enfim, damos a nossa cara para que as pessoas possam se identificar e perder a vergonha e o medo de “entrar” na Parada Cultural da NossaCasa e, enfim, levar livros e revistas para casa e ler, para se tornarem cidadãos críticos. É um sucesso total com a população nossas Paradas Culturais, porque aqueles que têm livros e revistas em casa, empoeirados, chamando insetos para dentro de casa, vão sendo tocados a doar (nossas trocas solidárias)  para nossas bibliotecas comunitárias, estimulados a participara da nossa grande onda cultural, a Pororoca das Letras, e, assim, ajudar aquelas pessoas que gostam de ler mais não têm dinheiro para comprar livros e nem se sentem à vontade de ir à uma biblitoeca pública, que é sempre muito cheia de regras, que até desestimulam o hábito da leitura.

Quando servidores públicos (ou equiparados) da Prefeitura vão às nossas Paradas Culturais e jogam nossos livros, revistas e cartazes no lixo, estão mostrando na verdade o valor que dão para a cultura e para a literatura. Nem precisamos falar muito né?! As ações dessas pessoas e gestores públicos que ordenam esses atos falam por si só. A simples atitude de jogar livros no lixo, mostra o nível de (des)educação dessas pessoas, que nos governam. É muito triste isso, principalmente, porque estamos falando de uma capital de um Estado. Sinto-me envergonhado de contar isso a meus amigos que moram foram de Macapá. Mas, eu ainda acredito que essas pessoas que dão essas ordens, manifestamente ilegais, arbitrárias, contrárias à educação e à cultura, um dia serão tocadas por uma força superior e nos deixarão em paz para fazermos nosso trabalho de educação popular, educação informal. Se não nos ajudam, gostaríamos que, pelo menos, não nos atrapalhassem e nos dêem o mesmo tratamento que dão, por exemplo, aos bares, bancas de revistas, lojas de carro de luxo, os quais podem ocupar as ruas (passeio público) de Macapá sem serem incomodados e, pior, ainda com o aval do Poder Público.

É difícil trabalhar com cultura no Amapá? Por que?

Puxa, é muito difícil trabalhar aqui no Amapá com cultura, sobretudo com a cultura popular, que é o nosso foco de atuação. Há uma falta de valorização generalizada desse segmento pelo poder público estadual e municipal e pelos empresários locais. Até parece que os gestores públicos têm vergonha da nossa cultura de raiz, da cultura feita nas nossas comunidades tradicionais, que é muito linda e muito valorizada lá fora. Isso mostra que os que nos governam hoje estão, na verdade, na contramão da história. É só você entrar no site do Ministério da Cultura (www.cultura.gov.br) e você vai ver lá vários editais de apoio à cultura popular. São milhões de reais sendo investidos nesse segmento pelo Governo Federal. Agora mesmo inscrevemos dois mestres da cultura popular (Mestra benzedeira D. Castorina Ardasse e Mestre Amaro da Reserva Extrativista do Rio Cajari – cantador popular) em um concurso nacional promovido pelo Ministério da Cultura. E aqui no Amapá, você vai na Secretaria Estadual de Cultura e não vê programas de apoio à cultura, principalmente à popular, dizem-nos que não tem dinheiro, por causa da crise mundial e blá blá blá. Falta técnica e vontade política de fazer as coisas acontecerem por aqui. Temos muita dificuldade de dialogar em nível estadual e municipal, principalmente, porque não fazemos parte de nenhum grupo político (e nem queremos!!!), pois somos técnicos, profissionais, gente simples do interior do Estado. Queremos ser respeitados por aquilo que fazemos e não por quem nos indica. Refutamos essas ações, somos contra isso tudo que está aí. Não aceitamos cooptação, venha de onde vier. Estamos muito mal das pernas por aqui. Anos luz do nosso Estado irmão, o Pará, que recentemente lançou vários editais de apoio a diversos setores culturais, inclusive as culturas populares, integrado que está às novas tendências culturais que estão acontecendo no Brasil todo.

Como se sente sendo homenageado no Senado da República?

Luciana, me sinto com o profundo sentimento de que “valeu a pena” tudo o que nós passamos até aqui, de bom e de ruim. E que a caminhada rumo ao nosso interior deve continuar…  Este é o coroamento do nosso trabalho árduo, feito nos nossos rios amazônicos, nas nossas comunidades ribeirinhas,  quase sem nenhum apoio governamental e empresarial, durante esses últimos 18 (dezoito) meses. E quero compartilhar esse sentimento e essa homenagem feita pelo Senado Federal, numa iniciativa do grande Senador da Educação deste país, Sen. Cristovam Buarque, autor da Lei que cria Semana Nacional da Leitura e da Literatura,  com tod@s aqueles que fazem parte, de alguma forma, dessa grande família NossaCasa: meus familiares (pais, irmãos, ti@s, prim@s), tão importantes quando você resolve se dedicar ao social; meus amig@s em Brasília, Rio de Janeiro, Belém e Macapá; @s voluntári@s que caminham diariamente comigo em Macapá e nas comunidades;  aos doadores anônimos de livros/revistas/computadores, CD’s, DVD’s; aos nossos únicos grandes parceiros do Governo Federal, em Macapá, o Instituto Chico Mendes (as equipes da RESEX Rio Cajari , da REBIO Lago Piratuba, da ESEC do Jarí e do Parque Montanhas do Tumucumaque. Sem o apoio desses super técnicos, não chegaríamos às comunidades); aos parceiros do Governo Federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasília (Programa Arca das Letras e Territórios Digitais) e Ministério da Cultura (representação em Belém e Biblioteca Pública Nacional); e, principalmente, nossas comunidades rurais ribeirinhas, por nos permitirem “invadir” suas vidas e rotinas numa pequena tentativa de formar leitores e, assim, contribuir para a formação dos novos cidadãos nos rincões da Amazônia.

O projeto tem um blog: http://jonasbanhosap.blogspot.com/

Siga Luciana no Twitter : www.twitter.com/lucapi

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