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Yeda e o legado do Sarney – Por João Silva

João Silva

Quero ver se a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, resolver reunir a família, bater uma foto bonita, e declarar ao Brasil que também não sai, bem no estilo Zé Sarney, para quem pedido de uma neta dengosa vale mais que a Constituição, que proíbe a contratação de servidores sem concurso público.

Para os mais íntimos e o povo da rua, como diziam antigos moradores do Largo da Matriz, o enredo é o mesmo: a governadora está sob um monte de acusações procedentes que nega, que julga irrelevantes, e vai ficando no poder.

Pelo visto Crusius não perdeu um capítulo sequer da crise no Senado, tanto que vai demonstrando desenvoltura diante dos fatos apontando contra ela, vai dificultando as investigações, vai ganhando tempo, cansando a mídia, desqualificando seus acusadores.

Claro que a governadora não tem o peso nem a expressão política, nem as alianças secretas de José Sarney, e falta-lhe um Lula disposto a botar a mão no fogo por ela, mas se vira, bota em campo sua tropa de choque e enfrenta o Ministério Publico, a Polícia Federal, a imprensa e a sociedade.

Ela e seus apaniguados estão sendo acusados de surrupiarem 44 milhões de reais do DETRAN do Rio Grande do Sul, para variar. O MPF moveu ação de improbidade administrativa contra a governadora, e não param de pipocar denúncias na CPI, um milagre dos céus (não sei como ela permitiu), instaurada para investigar seu governo.

Jornais do sul estão publicando pesquisa do IBOPE sobre a permanência ou não da governadora, se deve renunciar ou não, se deve ser cassada ou não, tal como se fez com Sarney no auge da crise do Senado.

Setenta e cinco por cento dos cidadãos ouvidos pelo IBOPE opinaram pelo afastamento da governadora, o que na prática não alterou em quase nada a possibilidade da cassação de Yeda Crusius, segundo o jornal Zero Hora na edição do dia 5 de outubro; a rejeição é a mesma conferida a Sarney no pico da crise do Senado (lembram?).

Assim como a força da maioria mal intencionada vergou a oposição propondo, na hora certa, a condenação de Arthur Virgílio, para, em seguida, oferecer-lhe a absolvição irrelevante porque relevante era livrar Sarney e esvaziar a crise, Yeda também tem bala na agulha, pode mudar os rumos dos fatos, pode negociar a rendição dos seus adversários, mesmo que estejam ao lado da lei e da sociedade.

A Governadora tem o orçamento do Estado do Rio Grande do Sul, possui a maioria na Assembleia Legislativa, o que quer dizer que domina as comissões mais importantes da casa, sabe como atender as exigências dos aliados; portanto está vivinha da Silva e no comando, tirando proveito do legado de José Sarney, não admite renúncia, e muito menos cassação! Sobre renúncia, aliás, aponte, quem souber, alguém que renunciou a um bom cargo no Brasil?

Ficou fácil ficar quando se tem poder. Basta organizar a resistência, escalar os seus cães de fila travestidos de defensores do povo na versão gaúcha, e pronto, afinal de contas o “aprendizado” que a crise do Senado produziu, de bom ou ruim, mais de ruim, creio, já que nada aconteceu aos principais acusados, virou rota de fuga para os maus políticos.

Na Comissão especial que analisa pedido de impeachment contra Yeda – serelepe inaugurando obras, falando pelos cotovelos, a relatora do processo já mandou lá sua canetada; chama-se Zilá Breitenberch, do PSDB, não por acaso partido da governadora!

O Paulo Duque de saia disse que não está presente nas denúncias justa causa para autorizar a admissibilidade do pedido e instaurar processo de crime de responsabilidade contra a companheira de partido, aquele joguinho que você já conhece, não é isso? Daí é que o relatório de Zilá foi aprovado na Comissão Especial, como já era de se esperar.

A exemplo da turbulência do Planalto Central, o imbróglio dos pampas também nos traz uma história escabrosa de neto de gente graúda, no caso da própria Yeda, personagem central da crise…Não é que a vovó manda chuva reformou o quarto dos netinhos usando a grana da Casa Civil do Governo do Rio Grande do Sul?

A falta de ética na política piorou no governo Lula, e está cobrando do País o preço amargo do comprometimento das instituições democráticas, afinal os maus costumes e seus agentes, durante a crise do Senado, impuseram retrocessos inaceitáveis, como a incolumidade de José Sarney, a censura imposta ao jornal O Estado de São Paulo e o esvaziamento da CPI da Petrobras.

O Brasil não consegue punir gente graúda, somos um País desfalcado dos exemplos que deveriam vir de cima em um governo leniente com a corrupção como não deveria ser, basta lembrar o Lula do movimento sindical e das Diretas Já. Para completar, a reforma política não saiu e a oposição deprimiu-se.

E não é só: o Palácio do Planalto abriu fogo contra o TCU, que luta por licitações limpas na sua luta sem trégua contra o superfaturamento nas obras do PAC, enquanto a ministra Dilma exalta a gastança, e a maioria no Congresso, acostumada a passar a mão na cabeça dos colegas em dificuldade ética, acaba de aprovar a abertura de 8 mil vagas de vereadores no Brasil…”Pra quê!”, diria dona Miquilina lá de Pedra Branca, se consultada fosse…

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