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Também este era Eu – Por Dom Pedro Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

O escritor russo Leon Tolstoi dispensa apresentação. É dele o conto do velho sapateiro Martyn, que acolheu e ajudou três pessoas necessitadas, simplesmente porque lendo o Evangelho, havia entendido que Jesus em pessoa ia visitá-lo na sua casa. Foi assim que o velho e pobre Martyn, aguardando a chegada de Jesus, acabou ajudando outros mais pobres do que ele. O velho morava e trabalhava num porão com uma única janela no nível da rua. Ele podia ver somente as pernas das pessoas e reconhecia todo mundo pelos sapatos, também porque os mais pobres pediam-lhe para remendá-los continuamente. Se não reconhecia alguém pelos sapatos e queria ver o rosto da pessoa, ele precisava abaixar-se, sempre espiando pela janela. Pelo fato de estar aguardando Jesus, naquele dia, o velh o ficou muito atento à janela, e deixou um pouco o seu trabalho. Martyn ficava comovido com a situação das pessoas que passavam. Primeiro acolheu o velho e alquebrado Stepanytch. Deu-lhe chá e palavras de conforto. Em seguida, viu pela janela uma jovem mãe, tremendo de frio, com uma criança no colo. Também lhe deu chá e comida e ajudou-a a recuperar o seu xale. Por último convenceu uma velha senhora que vendia maçãs na rua a perdoar um garoto que havia tentado roubar-lhe uma fruta. Contudo o velho Martyn continuava a aguardar Jesus. Foi neste momento que ouviu, atrás dele, uma voz que dizia:

- Martyn! Ei, Martyn. Não me reconheceste?

- Reconhecer quem? – balbuciou o sapateiro.

– A Mim – disse a voz – Esse era Eu. Então do canto escuro do porão apareceu Stepanytch, depois a mulher com a criança e enfim o garoto e a velha das maçãs.

– Também este era Eu – repetia a voz de Jesus.

Apesar de ouvi-las muitas vezes esquecemos as palavras do Evangelho: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo”. Sem dúvida isso vale para as crianças, mas também para todos os pequenos, os pobres, enfim para todos aqueles que acolhemos e ajudamos somente por generosidade, porque nunca nos poderão recompensar pelos favores recebidos.

Muitos hoje pensam que não devem mais ajudar os necessitados, porque já pagam muitos impostos e deveria ser a assistência pública a tomar conta dos indigentes, dos famintos, dos desabrigados, dos flagelados em geral. Em parte essas pessoas têm razão. Os grandes, os poderosos, poderiam ser maiores ainda se organizassem melhor todos os serviços básicos para a saúde e o bem estar do povo. Ser grandes é servir mais, lembra-nos também Jesus neste domingo. A própria política deveria ser um sublime “serviço” aos cidadãos se não fosse usada para interesses e vantagens próprias.

Contudo a melhor assistência social nunca dispensará os pequenos gestos de carinho e de solidariedade. Pela simples razão de que esses atos nos envolvem pessoalmente; obrigam-nos a dar atenção, a ouvir, a sentir compaixão uns pelos outros.

Melhorar o serviço social é uma questão de organização, de administração, de honestidade, de eficiência. Dificilmente será questão de amor. Se o meu gesto pessoal não resolver nenhum problema mundial, nem de paz, nem de justiça e nem de fraternidade, começa, no entanto, a quebrar o meu gelo, a minha indiferença, o meu culpar os outros pelas coisas erradas.

Está nos faltando humanidade, compaixão. Penso no exemplo que os pais podem dar ensinando às crianças a partilhar o pouco do que tem. Penso nos vizinhos que, às vezes, nem se conhecem e nem se falam mais. Choramos pelas desgraças das falsas personagens das telenovelas, e ficamos insensíveis diante da aflição de nossos irmãos em carne e ossos.

Coitados dos apóstolos! Naquele dia discutiam quem ia ser o maior entre eles e receberam de Jesus uma lição de amor e de simplicidade. Grande é aquele que serve e ajuda. Sempre. Também nos pequenos gestos. “É a mim que estão acolhendo” nos repete o Senhor, a todo o momento.

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