▲Ademir Pedrosa
Se o leitor neste instante lê esta crônica em plena luz do dia, certamente estranhará meu boa-noite. E se fosse noite nesse instante, não ia cismar se, porventura, recebesse um bom-dia? Pois saiba, leitor, que de quando em quando sou saudado por um cordial bom-dia em pleno breu da noite. Por locutores de rádio, apresentadores de televisão, cantores da noite e, especialmente, por comissárias dos vôos noturnos. Essas não costumam falhar, é instantâneo: bom-dia!, com a elegância peculiar que costumam ter as profissionais de bordo. Quando retribuo com o meu arrazoado boa-noite, elas sorriem capciosas e me mandam consultar às horas. Consulto: 0h e 45 minutos. E elas concluem: Pois é, já passa da meia-noite. E me mandam às favas, com um olhar desdenhoso. Outro dia precisei um táxi para ir ao aeroporto tomar um vôo à Belém, às 4 horas da matina, e liguei para o Rádio-Táxi. Levei um susto quando a mocinha no outro lado da linha me deu bom-dia. Pronto, perdi o avião!, pensei. Perguntei-lhe as horas: 3 horas da manhã. Pô, você me assustou com o seu bom-dia, eu pensei que eu tivesse passado das horas, que já fosse de manhã. E ela, no outro lado da linha, riu triunfante: senhor, já é mais de meia-noite!
Sempre me causou estranheza essa situação. Por que algumas pessoas cumprimentam com bom-dia antes do amanhecer? Elas justificam que depois da meia-noite já é outro dia. É verdade. O sábado, por exemplo, termina pontualmente à meia-noite, depois disso já é domingo. Disso eu não vou discrepar. Porém, a saudação bom-dia não se destina, no caso, ao dia de domingo. É para ser usada durante o dia, que é o espaço de tempo que compreende do nascer do dia ao pôr do sol e, mais restritamente, na manhã cuja parte do dia está situada entre o nascer do sol e o meio-dia. Depois, à tarde, se dá boa-tarde, que vai do meio-dia até o escurecer. E depois disso, já é noite. Que é o espaço de tempo entre o crepúsculo vespertino e o crepúsculo matutino. Vale ressaltar que não me refiro às horas, mas ao tempo. Pois há estádios no ano que os dias são maiores que as noites, e vice-versa. Os solstícios justificam o que eu digo. Daí a conclusão: o espaço do dia não é das 6 horas da manhã às 18 horas, nem a noite é das 18 horas às 6 da manhã. Dia é quando o tempo estiver claro; e noite é quando o tempo estiver escuro. Fui claro? Não vamos, leitor, complicar o que é simples, obscurecer o que é claro e generalizar o que é excepcional.
Em Macapá podemos observar o solstício mais nitidamente. Em razão das avenidas da cidade se situarem paralelamente à linha do Equador, podemos verificar que o sol, durante os dias 21 de junho e 21 de dezembro, atinge a eclíptica perpendicular à linha dos Equinócios. Desse modo, se você estiver situado na avenida FAB, no centro da cidade, de frente ao poente, nos dias próximos a 21 de junho, por exemplo, verificará que o sol vai se pôr no horizonte em direção ao aeroporto; enquanto que em 21 de dezembro o sol estará numa posição diametralmente oposta àquela, ou seja, o astro-rei estará declinando no seu crepúsculo mais ou menos em direção ao bairro dos Congós.
Vale lembrar que nos Equinócios das Águas e da Primavera que ocorrem respectivamente nos dias 21 ou 22 de março, e nos dias 22 ou 23 de setembro, quando a duração dos dias é exatamente igual. Durante esses dias, quando das passagens do sol por esses pontos, marcam respectivamente o começo do inverno e o do verão, e também do outono e da primavera. Em Macapá, onde temos o privilégio da linha do Equador passar no centro urbano da cidade, e que essa mesma linha serve como divisor das estações experimente fazer o seguinte. Convide a sua namorada (que pode ser sua mulher) ir a Fazendinha para um almoço, onde a estação do ano, ali, é o outono, no hemisfério sul do planeta; e quando for à noite, nesse mesmo dia, leve-a a um romântico jantar em qualquer lugar da cidade, desde que seja do lado norte do hemisfério, acima da linha do Equador, em direção ao Curiaú. Dê-lhe boa-noite, a propósito, antes do amanhecer, dê-lhe também flores, pois você vai estar em plena estação das flores, na primavera. Fala sério, leitor! O amor não é lindo? Especialmente em Macapá, quando você pode estar, no mesmo dia, em duas estações do ano. Basta-lhe perpassar a linha imaginária, e se imaginar debaixo de neve, num rigoroso e romântico inverno em plena hiléia tropical. Desculpe-me, leitor, se às vezes me inclino ao romantismo. É que o coração às vezes se sente confortável diante de tanta poesia que a generosa mãe natureza proporciona. Desculpe-me, portanto, pois a exigüidade do tempo é implacável, e isso não é hora para vagar em lirismo.
E como eu dizia, hora é a medida convencional para registrar cronologicamente o tempo, mas o tempo não obedece necessariamente às horas. Na Noruega, durante a aurora boreal, o sol nasce à meia-noite. O leitor já ouviu falar em tempo astronômico? Nem eu, mas fui consultar um volumoso tomo da Enciclopédia Britânica e lá dizia que blá, blá, blá… um monte de coisas certamente significativas, mas que não diz respeito ao que estamos tratando, pois a saudação bom-dia não é da alçada da astronomia, e sim da língua portuguesa que não autoriza esse desatino anacrônico. Portanto, não é procedente o argumento que se baseiam aqueles que, por ser um novo dia depois da zero hora, deve-se dar bom-dia. Tal procedimento é, digamos, um arroubo intempestivo. Não encontra abrigo nem na geofísica nem na língua portuguesa nem em patavina nenhuma. Leitor, por obséquio, que horas são? Nossa! Tenho que encerrar por hoje, porque aqui eles não pagam horas extras…
▲ Escritor e professor de língua portuguesa e literatura.
Comentários
Nenhum comentário para “Equinócio: boa-noite, leitor! – Por Ademir Pedrosa”
Comentar