A provável (ou quase certa) candidatura da senadora Marina Silva para a Presidência da República em 2010 foi recebida com entusiasmo por ambientalistas e por um setor não desprezível da classe média. Salvo engano, ela será a primeira candidata do Acre à Presidência.
Isso, por si só, é surpreendente. Mineiros, gaúchos, nordestinos, paulistas e cariocas já exerceram o cargo de primeiro mandatário do país. Que uma humilde acreana seja candidata a esse posto máximo, é algo que não pode ser minimizado, muito menos desprezado.
O Acre foi um território boliviano até 1903, quando foi conquistado por seringueiros nordestinos, esses “caboclos titânicos que ocuparam e povoaram o deserto”, segundo Euclides da Cunha.
Da seringueira da Amazônia foi extraída a borracha, que, entre 1880 e 1915, alimentou vários setores da indústria européia e norte-americana. O trabalho nos seringais era um inferno. O próprio Euclides, que viajou pela Amazônia em 1905, escreveu uma frase lapidar sobre o seringueiro: “é um homem que trabalha para escravizar-se”.
Marina Silva nasceu no interior do Acre, conheceu o trabalho árduo nos seringais, “a mais criminosa organização de trabalho”, para usar as palavras de Euclides, cujo livro póstumo, À margem da história (1909), reúne seus ensaios amazônicos.
À semelhança de Lula, Marina é uma brasileira que veio do mundo dos desvalidos. Mas, ao contrário do atual presidente, ela frequentou uma universidade, diplomou-se, e não migrou para uma metrópole do sudeste. Permaneceu no Acre, onde militou numa Pastoral da Terra e fez uma notável carreira política como militante do PT. Não menos aguerrida é sua luta pela preservação do meio ambiente. Ou melhor, pelo uso dos recursos da natureza em equilíbrio e harmonia com o sistema produtivo.
O desenvolvimento sustentável é um desafio à imensa maioria dos países, e não apenas os da periferia. Basta lembrar que George W. Bush, quando presidente dos Estados Unidos, ignorou, com a arrogância que lhe é peculiar, o Tratado de Kioto. O desenvolvimento a qualquer custo pode ser – e em vários aspectos já é – catastrófico para o futuro da humanidade.
Há poucos dias, descontente com a política ambiental do governo Lula, a senadora Marina Silva filiou-se ao Partido Verde. Sua candidatura à Presidência certamente ofuscará a dos candidatos de outros partidos pequenos, a maioria totalmente inexpressivos. Mas ela deverá enfrentar as contradições, incoerências e até mesmo aberrações de seu novo partido, que fez alianças com o governo do Mato Grosso, cuja política ambiental é, no mínimo, desastrosa.
Falta ao Partido Verde um programa detalhado e claro sobre as grandes questões nacionais. Além da devastação da floresta e da poluição dos rios, há outros problemas gravíssimos na Amazônia: a pobreza, a miséria, o desemprego e a ausência de infra-estrutura nas capitais da região.
Além disso, o PV é frágil e esgarçado. Não tem densidade eleitoral nem representatividade nos estados e municípios. Até 2010, talvez não seja possível reestruturar o partido e estabelecer uma relação orgânica entre um projeto de governo e a sociedade. Essa relação será difícil de ser construída em pouco tempo.
Mesmo se Marina Silva for eleita, seu primeiro grande desafio será a governabilidade. Como o PV vai obter uma maioria no congresso nacional? Com minoria no congresso, é impossível governar. É nesse momento que a chantagem e a barganha por cargos entram escancaradamente em cena e minam as boas intenções de qualquer Presidente da República.
Ainda assim, a candidatura da senadora do Acre é bem-vinda, pois dará substância ao debate eleitoral, além de ameaçar ou, quem sabe, desarmar a polarização entre tucanos e petistas. No entanto, penso que o mais urgente para o país é uma mudança radical do nosso sistema político. Entre outras coisas, essa reforma profunda deveria extinguir a imunidade parlamentar, que rima muito bem com a impunidade vergonhosa de deputados e senadores de todos os partidos. Mas são eles que legislam conforme a dança e as cores da festa. Verde, vermelha, azul ou amarela, pouco importam as cores. O que interessa é a festa. Ou a farra, para ser mais exato.
Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.
Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br
Não tenho dúvida nenhuma da capacidade de Marina e de sua luta até chegar onde hoje está (com a ajuda da estrutura e da militância do PT, naturalmente. O que aliás não vejo ser mencionado pela senadora em suas entrevista). Uma coisa chama minha atenção: no dia 25/06 assisti uma palestra da senadora, em Palmas, em um seminário internacional sobre sustentabilidade, que contava com a presença do grande intelectual Edgard Morin. A fala de Marina foi excelente, nota 10, com louvor.Mas só inteligível para um público formado por especialistas e iniciados. Com certeza aquele discurso proferido pela senadora o povão não entenderá nada. Uma linguagem totalmente fora do padrão popular. Sem nenhum vínculo com as necessidades básicas das camadas populares brasileiras que ainda não foram equacionadas. Desejo boa sorte à senadora, mas já dilmei há algum tempo. Estou em um período da vida em que a utopia significa projeto realizável e não “lugar nenhum”. Os meus netos dependem do que fizermos agora, incluindo, certamente, um meio ambiente saudável.
Sempre digo. Enquanto naõ houver reforms políticas e contitucional pode baixar Jesus Cristo na presidência que vai ter de lidar com essa tal de GOVERNABILIDADE.
Juntemos em um mesmo balaio: Marina
Silva, Fernando Gabeira, Zequinha Sarney, Micarla de Souza e etc, etc e ect e tal. Quais as utopias,
que sairam desta cartola.
Agora, o primeiro desafio da Senadora Marina é essa refundação do PV, se continuar com Zequinha Sarney no Maranhão, Dep Estadual Mandi no Amapá,etc… não verei muita diferença, em termos de futuro, do PT de Dilma. Mas a candidatura dela qualifica o debate das questões nacionais e para nós amazônidas tem importância emblemática.