Emanoel Reis
Terça-feira, 14 de julho, 7 horas. Cenário: Banca do Dorimar. Personagens: o próprio Dorimar, sentado atrás do pequeno balcão da revistaria, às proximidades do “caixa” (uma gaveta de tamanho mediano onde ele guarda a renda do dia) e um senhor, conhecido vendedor ambulante de camisas e bandeiras de clubes de futebol.
Trechos do diálogo – na verdade um monólogo recitado pelo vendedor – entre os dois decanos moradores de Macapá:
- … será que esse homem não percebe que já está na hora de entregar o cargo, sair de cena?…
- Han, han!
- … um homem de quase 80 anos, com uma história que parecia tão bonita, envolvido nesses escândalos… Que vergonha prá nós, brasileiros e amapaenses!
- Pois é!…
- Devia era aproveitar o que resta de velhice!… Olha, me decepcionei muito com ele!
Os dois interlocutores entreolharam-se, baixaram as cabeças e por alguns segundos emudeceram.
Em seguida, sem mais palavras, o homem afastou-se lentamente, seguindo pesaroso pela rua Cândido Mendes enquanto Dorimar dava trato às bolas.
Não perguntei sobre a identidade do personagem central da conversa. Também, nem era preciso.
Aquele vendedor, uma pessoa comum, resumiu sabiamente o que o povo brasileiro está sentindo em relação aos últimos escândalos no Senado: vergonha.
Isso mesmo, vergonha de ser brasileiro e honesto. Vergonha de labutar de sol a sol para pagar as continhas de fim de mês e saber-se logrado em sua boa-fé por homens velhos, há décadas encrostados no poder como ervas daninhas.
Vergonha de mensalmente conferir os caraminguás obtidos no labor, enquanto parentes de senadores e deputados (filhos e filhas, cunhados, cônjuges, netos e bisnetos, apaniguados, assessores de porra nenhuma, puxa-sacos e afins) se locupletam desse suor honrado.
Infelizmente, como as ervas daninhas, esses senhores são resistentes às intempéries. Ainda mais que para sobreviver contam com a sabujice de poderosos aliados. Sendo assim, mesmo alvos de artilharia pesada, raramente sucumbem.
Por isso, o desabafo do vendedor:
- … será que esse homem não percebe que já está na hora de entregar o cargo, sair de cena?…
Para ele, um cidadão comum, é difícil compreender porque, apesar de tantos escândalos, o tal personagem mantém os fundilhos pregados na principal cadeira do Senado.
Ele não compreende, meus e minhas, que em política não existem amizades nem inimizades eternas. E se é para garantir as 30 moedas, os verdadeiros discípulos que se danem. Nessa hora, todos os Judas Iscariote são bem-vindos.
No dia 17 de junho, isso foi demonstrado claramente pelo presidente da República. Segundo Lula, o presidente do Senado “(…) tem história suficiente para não ser tratado como uma pessoa comum”.
Sem dúvida, Lula é um sábio. Um luminar do novo pensamento político mundial. Como disse Barack Obama (presidente dos EUA), é o “cara”.
E Lula está certíssimo. Tratá-lo como “personagem comum” é uma ofensa às pessoas verdadeiramente comuns, “(…) a grande maioria de nós [que] labuta em sua vidinha, trabalhando, pagando contas, construindo casas e ruas e pontes e amores e famílias legais. Lutando para ser pessoas decentes, as que carregam nas costas o mundo de verdade” (Luft Lya – “A outra epidemia” – Veja, edição 2121 de 15 de julho).
Surpreendente a sapiência de Lula. De fato, o presidente do Senado não pode ser tratado como uma pessoa comum. Não igual àquele cidadão, nosso amigo vendedor ambulante de camisas e bandeiras de clubes de futebol.
Não!! Mil vezes não!!
Um verdadeiro cidadão comum ganha o pão de cada dia com dignidade e honradez.
tomara que esses cidadãos permaneçam indignados até o momento de comparecerem às urnas. pois esses cidadãos sim, podem fazer o que os ilustríssimos senadores do conselho de ética não desejam fazer.
E votei no Lula desde a primeira eleição para presidente. E ver ele se envergar e mais uma vez ser humilhado literalmente por Sarney, quando este exige que Lula se locuplete com ele, ao hipotecar apoio ao coronel maranhense…Lula sim suja sua biografia, enquanto que o coronel somente a completa, com outros capítulos..