Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Um cachorro andarilho, sem casa e sem dono, acabou entrando numa sala cujas paredes eram grandes espelhos. De repente viu-se rodeado de tantos cachorros. Ficou com muita raiva e começou a ranger os dentes e a rosnar. Todos os cachorros das paredes também fizeram o mesmo, mostrando os dentes ameaçadores. O cachorro começou a rodopiar para defender-se daquela cachorrada que latia raivosamente. Por fim decidiu atacar ao menos um daqueles monstros para dar uma lição aos outros assaltantes e mostrar sua bravura. Bateu violentamente num dos espelhos, caiu desmaiado por terra, cheio de sangue por causa do choque. Se tivesse meneado a cauda de forma amigável uma só vez, todos os cachorros dos espelhos teriam feito o mesmo e devolvido a gentileza. Teria sido um encontro festivo. Não podemos exigir que os cachorros sejam inteligentes, ou mudem os seus instintos. Mas nós humanos deveríamos sê-lo, aprendendo a moldar os nossos temperamentos. Os outros são espelhos para nós. Refletem as nossas atitudes. Se formos agressivos, irão nos responder também com agressividade. Se formos gentis e educados, mais facilmente receberemos uma acolhida pacífica e alegre. Quem já vai com pedras nas mãos, muito provavelmente receberá pedradas.Quando Jesus nos pediu “amai-vos uns aos outros” queria nos ensinar o caminho certo para não transformar a sociedade e a própria existência humana num campo de batalha, onde todos lutam contra todos. Em geral acreditamos que, na vida, ganha quem ataca primeiro ou quem bate mais forte. Como se Abel, por medo de ser morto pelo Caim de turno, o matasse primeiro. Nesse caso o saldo da conta não mudaria e Abel se tornaria Caim, homicida de seu irmão. Não estamos muito longe da realidade, com tanta violência e tantas agressões visíveis ou mascaradas. Também em nada ajuda a indiferença e o cinismo de quem transforma a morte em espetáculo do horror. Corremos o perigo de não distinguir mais a ficção da realidade. A vida não é um filme ou uma telenovela. Jesus ensina mais. Diz para nos amarmos como ele nos amou e que não tem amor maior daquele de quem dá a vida pelos amigos. Com efeito, ele nos amou oferecendo a si mesmo na cruz. Morreu amando amigos e inimigos; morreu por todos, conscientes ou não, agradecidos ou não. Os que viveram com Jesus aprenderam a lição e entregaram também as suas vidas por causa do Reino de Deus. Ele nos deixou o mandamento do amor. Os seus verdadeiros amigos deveriam obedecer à risca a essa ordem, não de forma servil, ou simplesmente porque vem dele. Há outra razão mais profunda. Ele diz que não somos mais servos que obedecem a um patrão, mas amigos de Deus. Se alguém pensava -ou ainda pensa- que Deus seja um mandão, intrometido em nossa vida, cerceando a nossa liberdade, deveria mudar de idéia. Deus é o primeiro a dar o exemplo, amando-nos totalmente no seu próprio Filho Jesus. Ele não veio com ameaças, com agressões, veio manso e humilde de coração. Preferiu apanhar que bater, aceitou ser morto antes que matar. Fez exatamente o contrário de Caim, e de todos aqueles que confiam na força das armas, da violência, das ameaças, do seu poder. Quis conquistar o mundo e os corações humanos com a mansidão e a generosidade. Amou primeiro. É nesse amor que deveríamos nos espelhar, como exemplo a ser imitado. Os cristãos deveriam ser ainda hoje os escolhidos, enviados a multiplicar os frutos do bem. Deveriam distinguir-se claramente dos agressores e dos violentos. Pode ser que precise ter a coragem de dar o primeiro passo estendendo pacificamente as nossas mãos. Será que os outros irão nos seguir como numa imagem que se reflete e se multiplica? É urgente arriscar, somente assim seremos construtores de paz e amigos do Mestre Jesus.
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