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Artigo – O muro da falácia ecológica – por Tomás Tarqüinio

*Tomás Togni Tarqüinio

Em nome da ecologia, o Governo do Estado decidiu construir um muro de 14,6 quilômetros de comprimento em torno de uma dezena de favelas da cidade do Rio de Janeiro. O objetivo alegado é proteger a Mata Atlântica. Com três metros de altura, a sua função é conter o desmatamento provocado pela expansão das favelas em detrimento da floresta que as circundam. Segundo as autoridades, as ações de educação ambiental e as políticas de fiscalização se revelaram insuficientes para impedir a perda da cobertura florestal. Para tal, o governo decidiu alocar R$ 40 milhões para edificar os muros que, eufemisticamente, denominam “eco-limites”.

Do ponto de vista ambiental, não existe nenhuma razão objetiva que o justifique. Além de inútil, a construção de muros provoca mais danos do que vantagens ao meio natural, sem falar das implicações sociais, políticas, antropológicas e jurídicas. A retórica oficial tenta fazer a coisa passar pelo seu contrário, além de realizar uma notável proeza: segregar excluídos em nome da ecologia. “Une première mondiale!”.

Segundo o Instituto Pereira Passos, nos últimos dez anos, a extensão da superfície das favelas sobre o meio natural foi de apenas 249 hectares. A Rocinha, presenteada com “eco-limites”, conheceu um aumento de superfície de apenas 1,2 hectares durante o mesmo período. Uma área equivalente a um campo de futebol! O aumento do número de moradias nas favelas sendo mais conseqüência da verticalização do habitat (90%) do que da sua extensão em superfície.

Ora, se a preocupação fosse realmente preservar a floresta, melhor seria recuperar 65.000 hectares (650 km2) de Floresta Tropical Atlântica desmatada no estado do Rio de Janeiro, entre 1990 e 1995, se considerarmos apenas esse período. Com R$ 40 milhões de reais é possível reflorestar 10.000 hectares – duas vezes a superfície atualmente ocupada pelas favelas cariocas, com 4.600 hectares. Ao comparar esses dados, a proposta de muros é insignificante e ridícula. Sem falar do desmatamento de 1,5 milhões de hectares de Floresta Amazônica que, em média, transformam-se em fumaça todos os anos, ou da degradação de outros ecossistemas brasileiros. Por uma questão de escala, a perda de 249 hectares não coloca em perigo a biodiversidade da Mata Atlântica, sob qualquer aspecto que se pretenda avaliá-la: seja a de espécies que a compõem, seja a de genes ou mesmo em termos de ecossistemas.

Nenhuma outra ação pode superar as vantagens do reflorestamento com espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas da Mata Atlântica: ela fortalece a biodiversidade, estabiliza o clima, regula os fluxos hídricos, estoca carbono para reduzir o efeito estufa, cria habitat para espécies animais, além de propiciar outros usos, como lazer.

No entanto, a edificação do muro só tem aspectos ambientais negativos.  A produção de cimento e ferro, intensiva em energia fóssil suja, é responsável por impactos ambientais globais, como a emissão de CO2, e impactos locais como a emissão de substâncias nocivas, como enxofre e partículas em suspensão, entre outras. Evitar esses impactos é uma questão de prioridade ambiental, mesmo caso preciso, onde o volume de cimento e ferro usado é pequeno com a relação à produção total do país.

Como se não bastasse, a construção de muros tem um viés perigoso e perverso: associa favela a danos ambientais. Nada mais falso. Os danos causados à água, ao ar, aos solos, à fauna e a flora, aos ecossistemas enfim, são diretamente proporcionais ao consumo de matérias primas e de energia por habitante. Quanto maior o consumo, maior o impacto negativo sobre a natureza. Ainda que imperfeitos para o caso presente, os indicadores de consumo de energia e de emissão de CO2 permitem dar uma dimensão à questão. A população brasileira com maior renda (classe média) consome energia, em média, como um europeu: 4 Tep/habitante/ano (tonelada de equivalente petróleo). O mesmo se pode dizer com respeito às emissões atmosféricas de CO2: algo em torno de 2 toneladas de equivalente carbono/habitante/ano. Alcançam esse patamar porque se deslocam de carro ao centro comercial mais próximo para comparar proteínas animais, pratos congelados, vinhos franceses, fraldas descartáveis, detergentes, viajam de avião ou visitam a casa de campo, usam eletrodomésticos, ar condicionado, sapatos de esporte, computadores, resmas de papel à vontade, além de dispor de mais espaço para mobiliar, iluminar, esfriar ou aquecer. Um modo de vida que diariamente alimenta os quatro cavaleiros do apocalipse ecológico, a saber: mudanças climáticas, perda de biodiversidade, esgotamento de recursos naturais e poluições as mais diversas.

Enquanto que, os habitantes de menor renda, como a população das favelas, respondem por índices quatro vezes inferiores, algo em torno de 1 Tep/habitante/ano e 0,5 toneladas de equivalente carbono/habitante/ano.  Aliás, não é por outra razão que ali residem.

Enfim, ao agir dessa maneira, as autoridades ambientais do Estado do Rio de Janeiro estão na situação de um bombeiro que tenta apagar um incêndio de grandes proporções munido de um balde de ouro cravejado de brilhantes. Mas, com toda certeza, não se trata de um caso agudo de cegueira ou de “eco-estulticie”, comparável ao de “ambientalistas” europeus que, para preservar o ar, lutavam pela instalação de canos de escapamentos catalíticos nos tanques do exército da antiga Alemanha Ocidental.

Por essas razões, a construção de muro, em nome da ecologia, além de absurda, é enigmática. Os responsáveis por ele não desconhecem as vantagens e desvantagens de uma e outra opção. As razões do mistério devem ser procuradas alhures, parecendo mais bem uma ação dissimulada com objetivos inconfessáveis tal como, aliás, muitos já alertaram para razões de segurança e/ou urbanismo.

*Tomás Togni Tarqüinio – Antropólogo, ecologista              3.ttt@bol.com.br

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