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Artigo – A luz da vela – Dom Pedro José Conti

A LUZ DA VELA

Dom Pedro José Conti,

Bispo de Macapá

Um homem estava para morrer. Chamou os seus três filhos e, para testá-los, disse-lhes que o herdeiro dele seria aquele que conseguiria encher o quarto enorme no qual estavam. Não disse com que deveiam encher o quarto. A única condição era que podiam gastar somente cinco reais cada um. O primeiro filho correu ao mercado e comprou alguns sacos de palha. Agitando os braços e correndo pelo quarto conseguiu enche-lo, mas logo cansou. As palhas caíram todas no chão e o quarto ficou rapidamente vazio. O outro filho optou por comprar sacos de penas de galinha. Também teve que soprar muito e agitar-se bastante no quarto para que ficassem voando. Quando também este cansou, as penas flutuaram mais um pouco no ar, mas no final tudo se aquietou e o quarto ficou vazio novamente. Chegou a vez do último filho. Nesta arrumação o dia tinha passado e o quarto já estava escuro. O terceiro rapaz, que tinha tomado as coisas com mais calma e reflexão, simplesmente comprou uma vela e alguns fósforos. De volta ao quarto do pai, acendeu a vela e o quarto encheu-se de luz. Sem muito esforço o filho tinha ganhado a prova. E ainda tinha sobrado dinheiro. Tranquilamente foi sentar-se na cabeceira da cama onde o pai estava deitado. A luz da vela durou até o sol raiar.

Luz e trevas não co-existem juntas. Ou estamos no escuro, ou na luz, por fraca que seja, afugenta a noite. No evangelho de João deste domingo, Jesus diz a Nicodemos: – Quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus -. A verdade funciona como a luz. Aonde chega acaba com as trevas do erro, da confusão e do mal.

No mundo dos holofotes, dos flash e das câmaras ligadas 24 horas, temos impressão que nada fica escondido. Vivemos todos na casa “mais vigiada do Brasil”. As cidades não dormem mais. Podemos trabalhar, viajar, nos divertir, também de noite.

Só que a verdade não se acende com um simples toque de interruptor. A comparação de Jesus não é com o mundo exterior, é com o que temos dentro de nós. Para que a verdade-luz entre precisa abrir a nossa mente e o nosso coração. Por isso Jesus pode dizer que – A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, para que suas ações não sejam denunciadas. –

São palavras duras! Como a luz, quando chega, acaba com a escuridão, também a verdade quando resplandece, desmascara as falsidades e as mentiras. Continuamos a ter medo da verdade, a fugir dela. Quantas verdades doem tanto que gostaríamos que fossem mentiras. Quantas vezes nos arrependemos do que fizemos e reconhecem que teria sido melhor se as coisas tivessem ocorrido de outra forma. Outras vezes negamos verdades evidentes, para não reconhecer nossas fraquezas, nossos erros, nossa mesquinhez. Neste caso o nosso orgulho nos impede de admitir a verdade. Chegamos a jurar o falso. Ficamos cegos, presos na escuridão.

Precisamos nos abrir à verdade. Deixá-la entrar na nossa vida. De outra forma perderemos o rumo. Não saberemos mais discernir se estamos dizendo a verdade ou se esta é mais uma possível versão de um fato ou de uma história, interpretada e relatada, conforme os interesses das partes. Quem não tem nada para esconder não tem medo da verdade. Deixa que seja esta a indicar-lhe o caminho. A verdade o conduzirá ao bem, o bem à paz, a paz a Deus. – A verdade vos libertará -, ensinou Jesus (Jo 8,32)

Tempo de Quaresma é também tempo para reconhecer a verdade. Para deixar que a luz de Jesus desça no profundo da nossa consciência. – Onde houver trevas, que eu leve a luz – cantamos tantas vezes com S. Francisco. Mas somente posso levar a luz se a tiver no coração, nos olhos, no pensamento. Dentro de mim. Pode ser uma luz fraca, bruxuleante como a luz de uma vela. Contudo afugentará a escuridão, encherá as nossas vidas. Nos mostrará o caminho. Porque esta luz é Jesus.

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