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Artigo- Não sou camelô por opção – por Alcides Oliveira

Sou brasileiro, casado, tenho filhos, tenho RG, tenho CPF e Título de Eleitor, nascido pobre, sou honesto, quase sem estudos, trabalhador para sustentar a minha família, dar comida para minha família, comprar o caderno e o lápis e a sandália para meus filhos irem para escola, tenho orgulho de ser brasileiro, mas parece que o Brasil não tem orgulho de mim, pois encontrei a pobreza logo que nasci, não sei porque mas a encontrei e vivo com ela até hoje e com certeza vou morrer com ela. A algum tempo andei procurando onde trabalhar com carteira assinada, encontrei mas não deixaram eu demorar muito porque eu não tinha estudado o suficiente para continuar a trabalhar ali. Perdi o emprego. Passei tempo a procurar outro desesperadamente, pois tinha pessoas precisando de mim, se agarrando em mim, esperando de mim e eu tinha que conseguir o que elas estavam precisando, de qualquer maneira, menos roubando, menos fazendo algo ilícito, menos cometendo crime, mas procurando um trabalho honesto, que me fizesse derramar suor, mas que me desse frutos para dar para a minha família. Não tem emprego, tem amargura. Não tem emprego, tem sofrimento. Não tem emprego, tem desespero. Não tem emprego, tem fome. Andei. Consegui um “bico”. Ganhei um dinheirinho, satisfiz a minha família por um momento, mas o dinheirinho iria acabar, o que fazer? Então, o instinto de sobrevivência me fez olhar um pedaço de calçada no centro da cidade e ver que ali eu poderia tirar o sustento para a minha família se eu conseguisse comprar alguns cocos e passasse a vender aos transeuntes. Mas e se as autoridades me impedissem? Se elas fossem um impedimento para mim? Consegui os cocos com a graça de Deus. Arranjei uma banquinha e passei a vender água de coco e daí ter mais um pouco de dignidade perante a minha família. Uma vida muito difícil de levar, sol e chuva e a calçada que não é minha, eu não queria assim, mas eu tenho de continuar, eu tenho que vender água de coco para que dessa água eu alimente minha mulher e meus filhos. As vezes eu me pergunto novamente: porque as autoridades ainda deixam eu ficar aqui? Porque não me tiram daqui? Eu não estou incomodando? A cidade me deixa ficar aqui? Então eu continuo, continuo sentindo um aperto, porque não tenho segurança nenhuma, preferia estar empregado de carteira assinada, que daria mais segurança a mim e a minha família, mas eu sei porque estou aqui e sei porque me chamam de camelô, mas sei também que a vida é que me fez ser camelô, porque não tive opção e a cidade deixou eu ficar aqui.

Uma ficção, que talvez retrate milhares de situações que ora vivemos e que por essa ficção devamos refletir que esse brasileiro é acima de tudo um ser humano, que pela situação já se sente extremamente excluído e que precisa ser incluído, precisa ser ajudado, precisa dar oportunidade a ele a empreender cada vez mais, certamente incluindo-o dentro de um contexto organizacional da cidade, que irá se prepara para isso, não sendo omissa no futuro ao permitir a ocupação do espaçamento que não aquele que foi preparado para esse fim e daí, talvez, algum brasileiro procure ser camelô por opção.

Professor Alcides de Oliveira

Email: alcides.oliveira2005@ig.com.br

Siga Luciana no Twitter : www.twitter.com/lucapi

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