Mas que gira, gira!
Por Ademir Pedrosa
O leitor lembra do Index? Index Librorum Prohibitorum, lista de livros proibidos considerados heréticos pela Igreja Católica, desde 1559 até 1966. Todos sabemos que a Igreja sempre castrou qualquer pensamento divergente de seus ensinamentos, mas o que é assustador são os nomes relacionados nessa lista. Para citar apenas dois notáveis, Galileu Galilei e Willian Shakespeare, foram excomungados. O drama shakespeariano Hamlet foi inserido no Índice porque aquela caveira do monólogo-filosófico “to be or not to be, that´s the question” era culto satânico. Galileu que ousou afirmar que era a Terra que girava em torno do Sol, e não o contrário, ele teve que retratar-se publicamente para não ir à fogueira e virar tição. Mas diante do Papa disse obstinadamente: “Mas que gira, gira!”
Se a humanidade fosse seguir os ensinamentos da Igreja, estaríamos anacronicamente na Idade Média. O leitor pode imaginar o mundo sem a pílula anticoncepcional ou sem a camisinha, que a Igreja, segundo seus dogmas, proíbe? Sem elas, o mundo não teria mais espaço, e cada indivíduo teria que ficar “ado-a-ado, cada um no seu quadrado”, para citar o que essa música ridiculamente sugere. Eu acho que o Papa presume que o celibato do Clero é o suficiente para impedir uma implosão demográfica. E é bom admoestar que pedofilia também engravida, para falar em corda em casa de enforcado.
O leitor recorda de um acidente com uma mocinha no Rio de Janeiro, e que a família, por ser adepta da seita Testemunha de Jeová, lutou encarniçadamente para impedir a transfusão de sangue na moça? Baseado no princípio da Beneficência, o ato médico é um dever prima facie, respaldado pelo Código de Ética Médica. O médico ignorou o impedimento da família e salvou a vida da moça com a bendita transfusão de sangue. Se o médico fosse seguir a doutrina dos parentes prosélitos, ele estaria assinando o atestado de óbito da paciente. A medicina está acima de sectarismo, crenças patéticas cujos seguidores se julgam no mesmo diapasão da ciência. Não é da mesma igualha. Que o diga Galileu…
Há o episódio da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto, e que resultou no infortúnio de uma gravidez prematura, com o agravante de ser de gêmeos – duas vidas, portanto. O médico que examinou a menina constatou que a gravidez prematura ia pôr em risco a vida da parturiente, e decidiu, com a anuência da mãe, submetê-la à intervenção cirúrgica do aborto. A lógica, o plausível, o ponderável, o discutível e etc, tudo conspirava em favor da interrupção da gravidez. Mas eis que surge a Igreja, divina e absoluta, com seu dogma farisaico para impingir a excomunhão àquele que ousasse desrespeitar a Lei de Deus. Não havia alternativa que não fosse a de salvaguardar a vida da vítima de tão ignominioso crime. E assim foi feito.
Incontinênti, o Arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, lavrou a sentença deífica: o médico, a mãe da menina, e a menina estavam irremediavelmente excomungados. E foi à televisão e declarou que o mal que foi feito não pode ser corrigido com outro mal – com o aborto, que é mais grave. Santo Deus!, um sofisma dogmático para justificar o que a Igreja considera pecado mortal. E finalizou dizendo que o papel do sacerdote é alertar a humanidade com a palavra de Deus. O papel do sacerdote? Eu que escrevo estas mal traçadas linhas, me pergunto qual é o papel do escritor? Respondo sem pestanejar: o A4.
Faz tempo – palavra de escoteiro – que não vou à missa, mas nesse próximo domingo eu vou. Quero agradecer pelo aborto concedido àquela menina. Agradecer ao médico, à mãe e a Deus. Amém!
Ademir Pedrosa, escritor e professor de língua portuguesa e literatura.
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