Belém, Pará – O escritor paraense Max Martins morreu segunda-feira 9, às 17h10, no Hospital Porto Dias, vítima de falência múltipla dos órgãos. O poeta estava internado há nove meses, com pneumonia. Morto aos 82 anos, deixa uma obra literária das mais importantes para as letras paraenses, dado o esmero que sempre teve na construção de imagens e composição gráfica de seus poemas. “Ele foi um homem que consagrou a sua vida à poesia” – externou o presidente da Academia Paraense de Letras (APL), Edson Franco, reitor da Universidade da Amazônia (Unama), tão logo soube da morte de Max. Literatos e admiradores da obra do poeta lamentaram a perda do escritor.
Em nota divulgada segunda-feira à tarde, o Governo do Estado lamentou a morte do poeta, “um dos maiores nomes da nossa literatura”. Max, além da poesia, dedicou-se à arte e à filosofia. “Publicou dezenas de obras importantes e foi diretor da Casa da Linguagem, entre 1990 e 1994. Sua morte representa uma perda irreparável, por tudo o que ele foi e significou para a nossa cultura” – diz a nota.
O velório do poeta ocorrerá no Museu do Estado do Pará, no entorno da praça D. Pedro I, de onde sairá o féretro, às 15 horas desta terça-feira 10, em direção ao cemitério Max Domini, em Marituba, onde serão sepultados os restos mortais do escritor.
A neta de Max, Laís Martins, funcionária da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, esteve sempre junto ao escritor durante a internação hospitalar, e foi a última pessoa a vê-lo na tarde de segunda-feira. Laís conta que, após ter sido diagnostica a pneumonia, Max Martins teve seu estado de saúde progressivamente complicado, inclusive com problemas respiratórios, parada cardíaca no mês de dezembro e paralisia dos rins. Pai de Maria da Graça e Maria de Nazaré e casado com Maria Laís, o poeta morava no conjunto Iapi, em São Brás. No imóvel encontra-se uma biblioteca organizada por ele, que reúne cerca de três mil livros. Max deixa três netos e três bisnetos. A primeira bisneta do escritor, filha de Laís, é aguardada para os próximos dias.
“Vou lembrar dele sempre como um homem que só queria viver pra família” – conta Laís Martins, única neta mulher de Max Martins, que espera pelo nascimento da também primeira bisneta do poeta. “Ele sempre quis preservar a família. Nunca teve interesses, era muito simples” – descreve, com emoção, o avô, que, segundo ela, faleceu às 17h15 da tarde de segunda-feira. “Ele já não falava, mas acho que sentia o que eu dizia” – disse ela, que lamentou por ele não conhecer sua filha, que vai nascer em breve. Segundo a neta, a família decidiu não contar sobre o falecimento à dona Maria Laís, viúva de 87 anos e que sofre de diabete e mal de Alzheimer. “Ela nem sabe que estamos aqui (no hospital). Achamos melhor não contar nada, pois isso só agravaria o estado de saúde dela.”
O professor Edson Franco ressaltou que o nome de Max Martins foi cogitado por diversas vezes para a Academia, mas ele nunca se interessou em ingressar na APL. Edson Franco enfatizou que Max tinha “uma poesia maravilhosa”, e que, dada a importância da obra dele, a Universidade da Amazônia prestou uma homenagem ao escritor: um vídeo sobre a sua vida e obra.
O vídeo sobre Max chama-se “Fazer como os pássaros cantar e voar”, baseado em um verso do autor. A produção envolveu os professores Paulo Nunes, Josse Fares e Abdias Pinheiro, por meio do Núcleo Cultural da Unama, em 1995.
“Esse vídeo estreitou muito a minha relação com ele, e permanecemos sempre nos falando, mesmo depois de ele deixar a Casa da Linguagem’ – lembra o professor de Literatura e escritor Paulo Nunes. “Como membro da geração modernista, Max entendia o ofício da palavra como algo exaustivo.” Para Paulo Nunes, Max foi um dos mais importantes poetas brasileiros, com uma “literatura muito vigorosa”, e se constitui em um divisor de águas entre os poetas paraenses.
O casal Benedito e Maria Sylvia Nunes (filósofo e diretora teatral) conviveu com Max Martins. Além da amizade, ficou a admiração. “Foi Max o meu amigo primeiro e o mais antigo. Ligava-nos antiga feição. Lemos os mesmos poetas e romancistas. Quando mais novos, defendemos as mesmas causas políticas e sociais. Tive nesse amigo o mais constante companheiro de trabalho. Junto, dirigimos revistas literárias. E nossos amigos eram comuns. Foi, como eu, um autodidata. E sobretudo um admirável e autêntico poeta, que soube viver a poesia que escreveu. É também a opinião de Maria Sylvia Nunes, de quem foi amigo” – declarou Nunes. (Colaborou Yáskara Cavalcanti)
Perfil
Foi em 20 de junho de 1926 que nasceu em Belém, Max Martins, um autodidata que trabalhou como chefe de escritório do Instituto Medicamenta Fontoura. Foi inspetor administrativo no Ministério da Saúde-Sucam. Nos anos 90, Max exerceu o cargo de diretor da Casa da Linguagem, da Fundação Curro Velho. Max foi patrono da Quarta Feira do Livro Pan-Amazônico, promovida pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult), em 1999.
“Eu conheci o Max quando eu ainda era estudante universitário e ele participava de um grupo poético junto com o Elliston Altman, chamado Grupo Parvinista. Esse grupo procurava desenvolver poemas de cunho surrealista com temas inusitados. Depois, eu convivi mais com ele na casa do Benedito Nunes, na época do Norte Teatro Escola do Pará. A partir daí tivemos contato em diferentes situações” – afirma o poeta João de Jesus Paes Loureiro. Para ele, a obra de Max Martins “é fundamental não apenas pela qualidade formal e linguagem poética, mas, também, pela benéfica influência do seu estilo na atualidade da poesia do Pará”.
Paes Loureiro ressalta a relação da obra de Max com a poesia concreta, ou seja, um trabalho marcado por uma poesia de grande rigor técnico privilegiando a poesia leve e procurando relacionar-se com as modernas corrente poéticas. “Foi um homem de grande sensibilidade e caráter, extremamente afetuoso, que ficará para sempre no coração de seus amigos da literatura do Pará. É um poeta paraense de dimensão universal.”
Lendo Max Martins
EDSON COELHO
Escritor
Uma vez, quando Max Martins era diretor da Casa da Linguagem, vi-o no Banco do Estado do Pará a receber o salário. Não ganhava mal, e recebeu tudo de uma vez, bolos de dinheiros pelos bolsos. Óbvio que era uma pessoa que não lidava bem com aquela situação (fila, salário, manusear o dinheiro). Parecia alheio, sem a movimentação das pessoas práticas. A concentração era funda, sim, nos tantos poemas árduos que por aquele tempo escrevia.
Max completaria 83 anos em junho próximo. Sempre soube, na vida e na obra, que uma cabana basta: para se ter de onde se ir. Índio de Belém, ancestral, filosófico: caminho de Marahu. Zen-amazônico. Ter de onde se ir para outra dimensão – a da palavra, da linguagem; e depurar o Eu pela dura saga do artista: poesia-vida.
E também – inevitável – ter de onde se ir para além da vida (toda obra é uma preparação para a morte). Leio dois textos marcantes do final da década de 80 (Max tinha 62 anos): “os grampos, teus cabelos ali”; no outro, chega a indagar-se sobre a morte: “Por que mais esta noite inteira esperando?” Enfrentar, então, o tempo implacável – reagir-lhe, impor-lhe um instante, sobreviver-lhe. A obra e o semblante de Max Martins: vincados pelas intempéries, serenos. Conquista, aceitação: resposta às ruínas como no belo poema (também de 20 anos atrás) “Outro sim”: outro sim à vida-obra:
Para que não se vá
a vida ainda
e a amada volte
pede à palavra
outra palavra
outra sob
palavra.
A palavra agora te dará cada palavra que pedires, Max Martins, pois que oitenta e dois anos foram só o começo. Tua obra-vida (cabana em Marahu) é o teu eterno lugar de onde se ir, tua preparação para a montanha, triunfo sobre o tempo; teus livros são lugares de onde partem, há séculos, jovens poetas: lugares intactos, inviolados, expressos em ti para que nós, leitores, tenhamos também, sempre, de onde seguir.
Obra
A partir de 1934, Max Martins fez estudos nas áreas de Literatura, Poesia, Artes e Filosofia, nunca abandonando o estatuto de autodidata. Colaborou na revista literária Encontro, em 1948, e publicou os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte, de 1946 a 1951. Lançou o seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Publicou sempre em edições pouco divulgadas, de curta distribuição. Dirigiu o núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem. Recebeu, em 1993, o prêmio de poesia Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Não para Consolar.
Olá, peço que divulguem.
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Obrigado
Isaac Almeida