Ademir Pedrosa
Mandei a fotografia da minha filha Maria – terna e sóbria –, ao Yashá, e ele preteriu em favor das fotos burlescas que povoam o seu universo de demônios. Quanto aos antolhos, não me cabem. Nem eles, nem o cabresto. Veja só:
Quando eu era garoto, entre doze e treze anos, havia no bairro onde eu morava um molecão – aliás, esse aumentativo cabia-lhe como uma luva, o moleque era o cão em forma de gente – que aterrorizava o nosso bairro. Não tinha um que já não tivesse levado uma surra dele. Menos eu. Eu era o mais mirrado da turma, e todas as vezes que ele insurgia contra a gente, eu me borrava de medo, mas sempre escapava ileso, muito mais por sorte do que por habilidade.
Certo dia, eu brincava com os amigos de peteca (bola de gude) na calçada da rua, quando surgiu do nada o valentão. Pernas, para que te quero! (sic) E não ficava um, mas eventualmente ele conseguia agarrar um pobre coitado. Espavorido, eu corria que nem o Papa-léguas, mas desta vez a sorte não estava ao meu favor. O chinelo me escapou do pé, e voltei pra pegá-lo, quando ele me alcançou primeiro.
Ele me agarrou pelas axilas e me ergueu no alto, de frente do seu rosto. Chacoalhou-me feito um boneco desengonçado. Como eu estava gripado, tossi; e soltei um espirro impertinente, que lhe cuspi o rosto, sem querer. Incontinenti, aproveitei a deixa para cuspir-lhe outra vez, dessa vez dissimuladamente. Ele me pôs de volta ao chão, e disse: olha o que tu fizeste, seu pirralho! E eu disse: foi sem querer, e roguei-lhe perdão. Ele disse: seu merdinha, tu não agüenta um cascudo, tenho pena de ti. Pensei que fosse me bater, mas teve piedade de mim, eu realmente não agüentaria um cascudo sequer.
Ele se despiu da camisa para limpar a meleca do rosto – foi forçado usar da própria roupa, pois eu trajava somente um simples calção de chita, o que evidentemente impedia de servir-lhe de toalha. Quando ficou nu da cintura pra cima, pude verificar que o moleque era mesmo forte como um pitibu. O bíceps avantajado era como de um atleta adulto. Aproximei-me, e perguntei se eu podia tocá-lo, ele assentiu com a cabeça, e eu dei três pancadas com as costas da mão em punho em seu tórax. Uma muralha, disse-lhe. Ele espraiou um sorriso incoercível. Daí passou a se exibir, e exultava da rigidez dos músculos. Ele saltitava, socava o ar numa seqüência frenética de golpes. Sacudia os ombros, e balançava a cabeça, como um pêndulo; e erguia o punho, vitorioso. Jactava-se, como se estivesse num ringue, e acabado de derrubar um pugilista imaginário.
Resolvi então desafiá-lo. Está vendo aquele tronco? Duvido se tu tens coragem de dar uma bicuda nele. Era um tronco oco e chamuscado que jazia na calçada. Ele não contou história, desferiu um chute certeiro que o pé, descalço, foi alojar-se no oco do tronco. Foi um sacrifício pra tirá-lo dali, e quando conseguiu se desvencilhar, o mondrongo do pé pingava sangue. Ao se recompor, disse: isso só dói em mariquinhas…
Era chegada a hora do golpe de misericórdia. E eu desdenhava da força dele, dizia que sua valentia era igual de qualquer um. Então eu desafiei. Queria ver se ele fazia que nem o “Cabeça de Aço”, lutador de telequete da tevê que derrotava seus adversários usando só a cabeça. Cada cabeçada era um nocaute. Quis saber se ele era homem, capaz de dar uma cabeçada naquele muro. Havia um resto de muro, ruína de um casarão abandonado, ali onde estávamos. Mexi com seu brio, e ele não admitiria ser comparado com um fracote. Provoquei-o, du-vi-de-o-dó! No mesmo instante ele tomou impulso, soltou um berro assustador, e deu uma brutal cabeçada no muro. Ouviu-se um barulho surdo e oco. Parte do muro tombou pra trás, e ele, cambaleante, caiu como um fardo no chão, desfalecido. Acudi-lhe literalmente com balde de água fria. Nascera-lhe um protuberante galo na testa, deste tamanho…
Mas eu tinha que mostrar que era eu quem tinha lhe abatido, levado ao nocaute. Mas tarde, quando li “O Barril de Amontillado”, de Edgar Allan Poe, eu pude compreender a necessidade preeminente de mostrar que era eu que me vingava, posto que não tivesse lhe tocado um dedo sequer. E não vale nada dos nadas uma vingança, segundo Poe, se o vingador deixar de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que é ele quem se vinga. Cheguei bem juntinho dele, e disse sussurrando: eu te quebrei o pé e a cabeça, e ainda te cuspi a cara; não te mete comigo que tu não agüenta… E saí dali sem olhar pra trás, cheio de bossalidade e feliz à beça com minha traquinagem.
Exumei esta história de tempos arredados para ilustrar uma proposição que Yashá e eu ora discutimos. Respondi aos insultos que Yashá fez ao Fórum Mundial. E como eu sabia que ele recusaria a publicação do meu texto em seu blog, provoquei-o. Mexi com seu brio, desafiei se tinha coragem de publicá-lo. E com a recompensa de eu usar antolhos se assim o fizesse. E lhe vi festejar a esperteza com o qual me obrigaria a usar antolhos, pra eu largar de ser otário. Parece absurdamente simples, não é? Ele publicou e cobrou de mim uma fotografia como jumento de arreios. E agora eu pergunto: quem deveria pôr os antolhos? Em mim não cabe, pois a história que vai acima ilustra suficientemente bem que conquistei o que queria, ou seja, levei-o ironicamente a fazer algo que se recusava peremptoriamente. Leitor, quem de fato, deveria usar os antolhos? Sinto-me um moleque traquino, desde sempre.
Ademir Pedrosa
De rima, de prosa.
(pedrosademir@hotmail.com)
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