Augusto Nunes
No século passado, se o destino juntasse no mesmo saloon José Sarney, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor, sobraria chumbo até para o pianista. “O presidente Sarney é o maior corrupto do Brasil”, recomeçavam o tiroteio Lula e Collor. “O deputado Lula é um primitivo”, revidava Sarney – além de “analfabeto”, mirava na testa Collor. “O governador de Alagoas é um canalha”, puxava o gatilho Sarney, antes que a ascensão e a queda de Collor sugerissem a Lula o tiro de misericórdia: “Foi o mais safado dos presidentes” .
Nada como um século depois do outro. Em 2003, meia hora de conversa (animada por meia dúzia de nomeações) bastou para que Lula e Sarney virassem amigos de infância. Em 2007, na primeira visita do senador Collor ao chefe de governo, ambos foram assaltados pela sensação de que choraram no mesmo berçário. No começo da semana, Sarney e Collor descobriram que cresceram na mesma rua. E se lembraram de que, quando chovia, nadavam na mesma enxurrada frequentada por aquele parceiro pernambucano.
Encerrada a eleição para a presidência do Senado, Lula ficou feliz com a vitória de Sarney, que ficou feliz com o apoio militante de Collor, que ficou feliz por ganhar de presente o comando da Comissão de Relações Exteriores. E todos ficaram felizes com o bom trabalho do ex-amigo, ex-inimigo e novamente amigo dos três Renan Calheiros, que ficou feliz por ter-se vingado do candidato derrotado Tião Viana, o único que não ficou feliz. “Venceu a base aliada”, consolou-o Lula, que diria a mesma frase caso o senador petista triunfasse. Há lugar para qualquer partido na “base aliada”. E há carteirinhas de sócio sobrando na portaria do Clube dos Amigos do Presidente.
Ali, Lula, Sarney e Collor trocam afagos na mesa principal, sob olhares aprovadores de centenas de associados que também protagonizam parcerias improváveis. A visão panorâmica da paisagem informa que os políticos brasileiros não enxergam diferenças entre o convívio dos contrários e a promiscuidade dos amnésicos de araque.
O Brasil democrático reduziu a anacronismos criminosos certos usos e costumes rotineiros nos grotões – cauterizar feridas morais com sangue, por exemplo, ou interromper com trabucos uma ofensiva retórica. Mas não foram abolidos o sentimento da honra, nem a capacidade de indignar-se, tampouco a regra já vigente no tempo das cavernas: há limites para tudo. Todos podem fixá-las como bem entenderem, mas segue obrigatória a demarcação da fronteira que separa o ataque duro do insulto imperdoável, ou da infâmia que exige rupturas definitivas.
Só quem primeiro perdeu a vergonha consegue encontrar depois dos 50 anos (ou dos 60, ou mesmo dos 70) amigos de infância com os quais nunca conviveu. Só a demissão da autoestima e a capitulação que desonra permitem a celebração de alianças tão chocantes quanto acasalamentos de clubes de swing. A praga das parcerias obscenas só serve para atestar que certas demonstrações de pusilanimidade exigem dos protagonistas muito mais coragem que qualquer ato de bravura. (Jornal do Brasil)
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