A (re) democratização das salas de cinema; ou o Fahrenheit 451 de Truffaut
*Por Raul Mareco
“Nós íamos bastante aos cinemas antigos de Macapá, como o Cine Macapá. Fazíamos questão de caminhar até o centro da cidade para ver os filmes; chegávamos a enfrentar filas enormes para entrar, principalmente quando passavam os filmes do Roberto Carlos”, disse a mim a minha tia Marilda Mareco, professora federal aposentada, quando junto com alguns de seus irmãos freqüentava as salas de cinema macapaenses na década de 60.
A magia do cinema, como se pode perceber, certamente não apenas maravilhou meus tios e tias, mas como a milhares de brasileiros que até hoje procuram os cinemas, se refrescando com os refrigerantes, se deliciando com os doces e principalmente saboreando os famosos sacos de pipoca, não esquecendo dos flertes que se iniciam nas filas e dos enamorados já consolidados no interior das salas.
Aqui em Macapá, outros cinemas como o Paroquial (que logo depois se tornou Cine Veneza) e o João XXIII faziam a alegria dos jovens da época, e como cinemas “de rua” davam o charme que contagiou gerações mundo afora, em outras salas de exibição.
De geração em geração, perpassando por variadas épocas desde que foi realizada a primeira sessão de cinema no mundo, exatamente no dia 28 de dezembro de 1895 em Paris, pelos irmãos Lumière, muitas inovações tecnológicas e principalmente mercantilistas foram introduzidas no mundo do cinema, e, neste caso, nas salas de projeção.
Dizem os executivos que comandam as grandes redes de salas de cinema no mundo, especificamente no Brasil, que a modernidade (ou a pós-modernidade) é bem-vinda, pois traz praticidade e conforto para os cinéfilos que vão às salas de projeção. Isso certamente eu não posso ignorar; mas, e o preço dos ingressos, será que é condizente com o bolso de todos?
Recentemente, vim de Belém-PA e pude constatar que, de forma absurda é cobrado um preço exorbitante e totalmente fora dos padrões financeiros da maioria do povo brasileiro, causando assim o que eu posso denominar de “mortalidade cinematográfica”, eliminando qualquer aproximação com a democracia, privilegiando apenas aqueles que possuem elevado poder aquisitivo.
Todas, eu repito, todas as salas de cinema em Belém são gerenciadas pela poderosa rede Moviecom, tanto no Shopping Belém (Ex-Iguatemi), quanto no Shopping Castanheira; a exceção é o velho Cine Ópera – localizado ao lado do falido Cine Nazaré (Hoje, Lojas Americanas) -, direcionado para um público mais adulto, digamos.
Há mais de dez anos no mercado, A Moviecom possui 82 salas de cinema em 16 cidades brasileiras, possui projetos sociais como investimentos na Mostra de Cinema Iraniano -, o que é muito importante, temos que reconhecer, entre outros, e foi, inclusive, considerada a rede de cinema mais simpática do país, diz o sitio da rede, www.moviecom.com.br.
Porém, os amantes da sétima arte com o bolso menos privilegiado com certeza não a acharão tão simpática assim. Veja a tabela em ambos os shoppings: às segundas e terças-feiras é cobrado o valor de R$ 12; na quarta-feira R$ 10; da quinta-feira ao domingo é cobrado R$ 14; porém, o absurdo está na cobrança de R$ 16 a partir das 18:00h durante o final de semana. É como se após este horário algum serviço especial fosse fornecido ao cliente, como a distribuição de pipocas, por exemplo.
Ou, você ainda não percebeu que as grandes empresas apenas querem lucrar, sem deixar de olhar para o próprio umbigo? Falando em pipoca, vamos aos preços. Não recordo o preço das embalagens pequena e média, mas a maior custa R$ 6, e de microondas, configurando mais ainda a cobrança exagerada.
Outra questão também não pode passar despercebida. Em Belém não existem mais salas de exibição “de rua”, como antigamente. Os poderosos shoppings centers abocanharam esta lucrativa fatia do mercado belenense, e só para se fazer um breve comparativo com nossa cidade, quando escrevi que minha querida tia Marilda se sentia privilegiada em ir ao cinema pagando por um preço condizente, era porque gostava de caminhar até o cinema de rua, pois era próximo.
Hoje, algumas pessoas precisam atravessar a cidade de Belém para chegar a um dos shoppings, pagar por um preço exacerbado e não ter muito conforto, como dita as regras da pós-modernidade. Em Macapá, ainda resiste apenas um cinema considerado “de rua”, o Cine Imperator, o qual cobra, todos os dias, R$ 10, à exceção das quartas-feiras quando cobra apenas R$ 5. O Cine Macapá, como é sabido, cobra o mesmo preço, com um melhor conforto, digamos, mas já nasceu com o Shopping Macapá.
Infelizmente, a chama da magia do cinema vem se apagando gradativamente no decurso das décadas, quando se refere às salas de exibição. Ou as grandes redes cobram o “olho da cara”, ou instalam suas salas em shoppings porque sabem que o ciclo de movimentação é bem maior do que um cinema “de rua”.
Em breve, aqui em Macapá, inaugurará o primeiro grande shopping da capital com 05 salas de cinema previstas; e informações não oficiais dão conta de que a rede que virá gerenciá-las cobra um preço tão mais elevado do que a rede Moviecom, em Belém, assim como em outras cidades.
É o interesse privado e a cultura para as elites impedindo que o povo tenha mais informação, mais entretenimento. Lembrei-me agora de um filme da década de 60 do consagrado diretor francês François Truffaut, Fahrenheit 451, um ficção onde bombeiros queimavam livros impedindo as pessoas de terem acesso à informação.
Parece que vivemos em uma realidade não muito distante, onde inquisidores mercantilistas afastam o direito à cultura e à informação do povo. Estamos sendo subjugados por um sistema capitalista selvagem e visceral que vem afundando subitamente o acesso às salas de cinema, e o acesso a tantas outras ferramentas relevantes para o discernimento da grande maioria.
Na verdade, este é o papel deste sistema que ultimamente vem convalescendo perante as crises econômicas: colar cirurgicamente uma fenda nos olhos do povo, impedindo-o que se rebele contra as mazelas habituais, contra o escárnio, contra as arbitrariedades. No mínimo, um boicote a estas extravagâncias desnecessárias seria o ideal. Resistamos, a magia do cinema pode voltar um dia!
* Raul Mareco é jornalista graduado e assessor de comunicação
não seria interessante postar fotos desses cinemas? Afinal, Macapá, a exemplo de outras cidades, também tem uma bela vida cultural
favor postar tambem fotos para complementar o apanhado sobre a aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaagitada vida cultural da cidade,
Obeigado.