A parada do Orgulho Gay, que aconteceu no domingo, 07, atraiu cerca de 8 mil pessoas à Orla de Macapá. O atraso de 4 horas não abateu o ânimo dos participantes. O evento contou com dois trio elétricos e cerca de meia centena de vendedores ambulantes que se acotovelavam para vender desde cerveja e refrigerante, até churrasquinho e coxinha. Estiveram presentes as lideranças GLBT, a deputada Janete Capiberibe(PSB), a vereadora Cristina Almeida(PSB) e o vice-governador e secretário de saúde, Pedro Paulo Dias(PP).
Entrevista com a militante Ivana Antunes
Quando ninguém em Macapá tinha coragem de expor publicamente sua orientação sexual, a professora Ivana Maria Antunes Moreira, de 45 anos, nascida no interior de São Paulo, em Guará, chegada no Amapá em 1977 com a família, resolveu mudar isso. Ela conta do preconceito que sofreu e dos avanços durante essa caminhada de pouco mais de sete anos na organização dos homossexuais no estado do Amapá no Ghata, o Grupo das Homossexuais Tildes do Amapá, do qual ela é hoje Coordenadora de Projetos.
Como foi que você começou a organizar o movimento aqui no Amapá?
O Ghata surgiu em 2001, dentro de uma política pública do governo Capi, na época tinha a organização da sociedade em movimentos, era assim para poder participar da elaboração do planejamento participativo que a gente estava fazendo na época na AGEMP(Agência de Mobilização e Participação Social). Lá havia um programa chamado Nação Mulher, que era um projeto de organização das mulheres, de fortalecimento e geração de renda, em todos os setores da participação social das mulheres, e a gente trabalhou com as parteiras, com as mulheres artesãs, com as mulheres indígenas, com a marchetaria.
Já nos dois últimos anos de governo, os únicos segmentos que ainda estavam excluídos eram os segmentos das prostitutas e das lésbicas. Então nós fizemos um projeto chamado Afrodite para trabalhar a organização das prostitutas e um projeto chamado Margarida para organizar as lésbicas, e aí nós começamos a identificar lideranças tanto prostitutas, quanto lésbicas para começar esse movimento de organização, e aí fizemos umas visitas técnicas à Bahia, no movimento de prostitutas da Bahia, de Lésbicas também,o GLB, e aí a gente começou a organizar, fazer reuniões e aí a gente decidiu que tinha que ser criado realmente uma organização. Do Afrodite surgiu a Antessap (Associação das mulheres prostitutas do Estado do Amapá) e do Afrodite surgiu o Ghata(Grupo das homossexuais tildes do Amapá). Em 2001 a gente fez uma assembléia de criação do Ghata, a escolha da logomarca, a escolha do nome, a eleição da diretoria, a elaboração do estatuto, e o Ghata funcionou como um movimento de Gueto, funcionava na boate não tinha visibilidade nenhuma e as reuniões eram só pra época da parada, sobre essa questão de prevenção a AIDS, as DST’s, quando chegou em 2004, nós decidimos que era o momento de institucionalizar, de regularizar o movimento para qualificar para a luta por direitos humanos.
Quando regularizamos o Ghata, escolhemos uma pessoa que tivesse respeito da sociedade e fosse reconhecida pela sociedade para assumir publicamente a homossexualidade para abrir caminho para a visibilidade positiva. Eu fui a pessoa escolhida e assumi essa responsabilidade de ir para imprensa e mostrar que a gente pode ser homossexual e ser feliz, ser competente, honesta, digna, trabalhar direitinho, ter uma relação estável, saudável, durável e ter uma vida para mostrar que sendo homossexual a gente pode ser tudo de bom e ser feliz ainda por cima.
Existe muito preconceito contra as pessoas que militam nessa área dos direitos humanos em particular dos gays?
Sim, existe. Eu já fui demitida de uma escola por ser homossexual, na época eu ainda não tinha começado a trabalhar com o movimento. Mas isso fica muito nos bastidores, ninguém confessa porque sempre tem a desculpa de falta de recursos, reestruturação, sempre tem uma desculpa.
Uma vez eu tava na conferência nacional das mulheres em Brasília. Depois do encontro a gente se reuniu num barzinho debaixo do hotel e passaram cinco rapazes com um galão de combustível e disseram que aquela gasolina “era para queimar sapatão”. Nós chamamos a polícia mas nada foi apurado. Aqui no Amapá as pessoas têm muito medo de denunciar, a gente tem muitos relatos, mas existe muito medo de denunciar a violência e o preconceito.
Existe também o preconceito institucional. A homofobia, assim como o racismo e o machismo são preconceitos estruturais, estão presentes em todos as estruturas da sociedade, na família, na igreja, na escola, nas instituições públicas, privadas, ou seja, em todos os lugares e nas instituições também. Existe muita resistência ainda, a gente é um estado Cristão, um estado que é muito religioso e até hoje nós não temos nenhuma política pública implantada no estado voltada para a população GLBT.
E a parada Gay, como começou aqui no Amapá?
O Ghata foi criado no dia 14 de junho de 2001. No dia 04 de julho de 2001 foi realizada a primeira parada. Em 2001, na primeira caminhada, tinha apenas umas 50 pessoas, havia ainda muito medo de se expor. Nós escolhemos o local, a praça da bandeira, porque representava um local de reunião dos movimentos de luta. O dia era uma sexta-feira a tarde para pegar o comércio aberto ainda. Aí nós fizemos essa caminhada da praça da bandeira descendo a avenida FAB até a Cândido Mendes, descemos toda a Cândido Mendes e encerrou lá na beira rio. Essa foi a primeira parada: um trio elétrico e a gente atrás. Não era um segmento reconhecido, não era uma luta reconhecida, não tinha organização, não tinha militante suficiente, eram só as pessoas que tinham criado o Ghata, e algumas pessoas apoiadoras. Foi um movimento para dar visibilidade, dizer: olha existe aqui lésbicas, gays, travestis, esta todo mundo aqui e nós estamos organizados agora. Hoje nós estamos esperando 30 mil pessoas. A partir das 15h, saindo do Araxá.
Depois que o movimento começou a se fortalecer, então houve uma demanda do pessoal de salão de beleza, do pessoal que vive na noite também, de mudar para o domingo a parada, então enquanto a gente tava trabalhando a visibilidade a gente fazia na sexta-feira para pegar o comércio aberto pras pessoas verem a gente. Depois que nós passamos dessa fase, que a parada tomou outra dimensão aí nos mudamos para o domingo.
Como é o trabalho desenvolvido pelo Ghata?
O Ghata desenvolve a luta pelos direitos humanos, então a gente atua na área de saúde, de direito, justiça, educação, cultura, esporte, lazer. Trabalhamos na promoção da saúde e a saúde como um direito humano da população GLBT. Nós fazemos a parte de sensibilizar o estado para que crie políticas públicas para que a população GLBT tenha acesso a saúde.
Nós entramos nas escolas através de um programa do Ministério da Saúde chamado Saúde e Prevenção nas Escolas, que é um projeto direcionado para a juventude que discute nas escolas temas polêmicos com foco na prevenção a AIDS, então a gente trabalha diversidade sexual, direitos humanos, gravidez na adolescência, protagonismo juvenil, drogas. E aí nós entramos fazendo parte do grupo gestor do programa aqui no estado, com a parte de diversidade sexual, formação da sexualidade humana e direitos humanos.
Na hora de entrar nas escolas para divulgar a Parada, aí existe preconceito. Muitos diretores não permitem que a gente entre na escola e coloque o cartaz. No ano passado nós tivemos problemas, tivemos que fazer um documento para o secretário de educação para pegar uma autorização para que a gente pudesse entrar nas escolas. Até no ano passado nós tivemos muitos problemas com a prefeitura na questão da documentação para que a gente pudesse realizar a Parada, porque sempre a prefeitura queria embargar a Parada, tem uma série de documentos que a gente tem que ter para não ter problema nenhum no dia e era uma confusão, que o Ministério Público tinha que atuar e atuou durante três anos dando canetada na prefeitura para que a gente pudesse ter os documentos para organizar a parada.
Isso é puro preconceito porque ninguém pede isso tudo do Círio de Nazaré, da Marcha para Jesus, da caminhada Alexandrina, não tem esse tipo de coisa, mas como é uma caminhada GLBT, todo tempo é a maior confusão para conseguir as autorizações, do uso do solo, sonorização e do trânsito. Mas esse ano foi mais tranqüilo, eles entenderam já que é um direito, que não é preciso a gente pagar pra fazer a parada. Eles queriam que a gente pagasse o trajeto da parada. A Urbam na época queria calcular o tempo que a gente ia permanecer em cada metro do percurso e calcular para saber quanto a gente ia ter que pagar para poder fazer a parada. Foi muito difícil para eles entenderem que não é um evento comercial como a micareta, que vende abada, vende bebida tem camarote, a parada é um evento pelos direitos humanos.
Você quer dizer algo mais…
Falar para as pessoas curtirem mais a vida, serem mais felizes, assumir sua sexualidade. Viver bem, sexo faz bem, prazer sexual, desejo, fantasia faz bem, desde que haja respeito mútuo e que a gente busque ser feliz construindo um mundo de paz.
Tomo com minhas as palavras de Arnaldo Jabor:
“Antigamente o homossexualismo era proibido no Brasil. Depois passou a ser toleado. Hoje é aceito como coisa normal. Eu vou-me embora antes que passe a ser obrigatório…”
Ivana, e todos os lutadores pela igualdade de direitos e pelo fim a hipocrisia, parabéns pela luta. Que a parada seja um sucesso. Mais um evento onde as pessoas possam ser do jeito que são, sem ficarem debaixo de rótulos ou de máscaras. Ô, Mateus, imagino que vc poderia ter “intelectuais” melhores do que o Arnaldo Jabor prá se espelhar. Aliás, não há nada mais ignorante e hipócrita – uma coisa tem bem a ver com a outra – do que a afirmação que vc citou. Belo “guru” vc foi arranjar… Viva o respeito e a verdade.
Querida Ivana, saiba que acredito na sua luta, penso que pessoas como você são tão importantes e necesarias neste mundo, pois discutir e refletir sobre a diversidade e as diferencias existentes na humanidade, sendo que uma dessa é a afetvidade e a orientação sexual, uma condição é imprescindivel: a coragem.Bela Luta,Bela causa!
achei muita politicagem, muita gente com nariz inpinado, a parada gay de macapá numca mas foi a mesma deste deste quando a gatha passou a organizar