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Manchete

Os suruis e o savoir faire de Genebra

Os suruís e o savoir fair de Genebra

Agência Amazônia – Novembro de 2008

MARACIMONI OLIVEIRA (*)
contato@agenciaamazonia.com.br

A jornalista Maracimoni(esquerda), que já atuou no Amapá e hoje mora em Genebra

Imagine uma cidade européia em fim de outono, onde já começa a entrar o frio e a neve surge nas montanhas. No meio desse cenário que me remete à saudade do calor amazônico, em toda sua essência humana e geográfica, me deparo na agenda cultural de Genebra, com o anúncio de um concerto de música clássica em homenagem aos Suruís, povo guerreiro da divisa entre Rondônia e Mato Grosso.

A vontade de me sentir um pouco mais perto da minha grande terra, a Amazônia, e mais ainda a curiosidade de ver a maneira suíça (o savoir faire) de homenagear a diversidade me levaram numa noite fria de sábado a conhecer a mais célebre e rica sala de espetáculos da cidade de Genebra, onde se tem uma mostra da suntuosidade deste rico país.

Foi no Teatro Victoria Hall que eu também descobri o outro lado dos suíços, que não seja a polidez agregada a uma extrema organização que para nós dos trópicos parece mecânico. Eu conheci o lado sensível e generoso desse povo, com a capacidade de reconhecer a luta dos nossos guerreiros indígenas.

Essa sensibilidade com a diversidade explica-se pela formação do País. Os suíços durante muitos séculos também viveram isolados, como os índios, encravados entre as montanhas. Representam um povo muito antigo. Há quatro anos, a Suíça comemorou 700 anos.

São séculos de autêntica preocupação com o meio ambiente, o que os torna precursores meio-ambientalistas. Eles foram os primeiros a reciclar, a usar energia limpa, a investir no transporte público de qualidade tirando os carros das ruas para evitar a poluição; são naturalmente contra o consumo e protetores da natureza.

Foi essa tradição que os levou a homenagear os Suruís da maneira mais célebre e glamorosa, com a pompa de um concerto com música de Mozart e do nosso brasileiríssimo Heitor Villa-Lobos, no Teatro mais importante da cidade, tendo no palco a Nova Orquestra de Genebra e o Coro Gaudia. No total 40 músicos, contando com duas sopranos de voz magnífica, dois tenores e a sensibilidade do guitarrista André Fischer – um músico suíço especialista em Villa-Lobos. Ele toca todas as notas do nosso maior compositor clássico sem olhar em nenhum momento para as partituras.

Almir Suruí: sob o som de Mozart e de um esplêndido coral / DIVULGAÇÃO

Casa cheia e aplausos

Fiquei surpresa quando vi o teatro lotado para aplaudir um líder indígena que estava representando a luta pela sobrevivência de um povo que quase desapareceu no final dos anos 1970. As doenças dos brancos quase exterminaram os Suruís, sobraram menos de 300 descendentes.

Depois veio o desmatamento ilegal que praticamente destruiu as terras dos Suruís. Entretanto, eles conseguiram se libertar dos madeireiros e começaram a replantar a terra, tornando-se exemplos de luta contra a destruição florestal. Hoje a tribo está engajada em recuperar e reflorestar a terra de seus ancestrais e multiplicar-se.

O concerto em favor do povo Suruí levou mais de mil pessoas ao Victoria Hall, cujo valor do ingresso, vendido a 50 francos (cerca de R$100), foi revestido a projetos para o grupo indígena de Rondônia. Uma platéia eminentemente suíça que ouviu atentamente a história dos Suruis e aplaudiu de pé, por mais de 10 minutos, o líder Almir Narayamoga Suruí, que veio à Genebra para receber o premio IGFM, concedido pela Sociedade Internacional de Direitos Humanos, sediado na Suíça.

Para se ter uma idéia da importância deste prêmio ele já foi concedido a líderes como Dalai Lama, entre outras personalidades suíças e européias. Almir com seu imponente cocar impressionou os sisudos suíços que, ao final, fizeram fila para cumprimentá-lo. No meio daquela platéia minha emoção misturava-se ao orgulho de ver os suíços renderem majestade aos índios da Amazônia. Meu sangue índio falou alto e confesso que senti uma indisfarçável soberba sobre os europeus.

(*) Jornalista nascida em Macapá, no Amapá, onde atuou como repórter e editora do jornal Folha do Amapá. Em 2004 ela se transferiu para o Acre, onde foi repórter e co-editora do jornal Página 20, e na equipe que produziu o folhetim Meu Lugar, da Prefeitura de Rio Branco. Colaborou com a Agência Amazônia. Em meados de 2008 ela noivou com o subsecretário da ONU Carlos Lopes e passou a morar em Genebra, na Suíça. Originalmente publicado na página Alamanacre, dominical do Página 20.

Elson Martins: contato com os Suruís, no final dos anos 1970 / ALE-CE

Abraço do “yara”!

ELSON MARTINS (*)

Os índios Suruís que vivem no Parque 7 de Setembro em Cacoal, Rondônia, quase foram exterminados na década de setenta do século passado, pelos migrantes do Sul que ocupavam a região estimulados pelos militares do golpe de 1964. O Incra abriu 13 linhas de assentamento nas proximidades da aldeia, mas perdeu o controle da distribuição dos lotes que passou a ser feita de forma desordenada e corrupta a partir de 1974, com incitamento de fazendeiros e grileiros contra os índios.

Em 1977, como repórter do jornal O Estado de São Paulo com a missão de cobrir conflitos no Acre e Rondônia, permaneci alguns dias na aldeia dos Suruís em companhia do sertanista Apoena Meirelles, que fora convocado para tentar acalmar o clima de guerra entre índios e brancos. Apoena, que viveu entre eles quando criança – pois foi o sertanista Francisco Meirelles, seu pai, que fez o contato com o grupo – ao passar em Cacoal comprou armas e munições com o dinheiro que a Funai mandou para comprar miçangas.

Apoena Meirelles
A mata tombando

Da aldeia 7 de Setembro, nas margens do Rio Roosevelt, dava para ouvir o ronco das motos serras e o barulho da mata caindo. Os parceleiros do Incra haviam decidido estender as linhas de colonização e tomar conta da terra indígena. Os índios mais novos, armados por Apoena, faziam rituais de guerra e passavam o dia de espingarda na mão querendo partir para o confronto. Na outra frente, os colonos não permitiam mais a intermediação das autoridades, nem do Incra, Polícia Federal ou Exército.

Na aldeia a situação ficava mais ou menos controlada pela liderança do experiente Dick Boba, e por causa da confiança que a tribo tinha em Apoena, um dos últimos grandes sertanistas da Funai, assassinado há alguns anos em Porto Velho. Na aldeia encontravam-se também meu amigo de Colégio Acreano, Edilson Martins, na época repórter especial do Jornal do Brasil, e um fotógrafo alemão com um saco de miçangas fotografando índias nuas.

Acho que aquele foi meu primeiro contato direto com os índios em sua aldeia, e confesso que não me senti à vontade diante dos rituais de guerra e devido alguns empurrões acompanhados da raivosa provocação “Iara!” (branco) que alguns guerreiros jovens e irritados aplicaram em mim. Tive que pedir ajuda do Apoena, que me apresentou como amigo “doutor grande” e mostrou aos índios qual era minha função ali, como jornalista.

Depois dessa conversa, quando anoitecia, alguns deles quiseram conhecer meus instrumentos de trabalho. Eles se interessaram, sobretudo, pelo meu “jurássico” gravador Panasonic, de quase dois quilos, com o qual eu gravava e reproduzia suas falas e cantos. Todos riam muito e numa noite um velho índio aproximou-se, fez sinal (nenhum falava português) para gravar e começou a imitar sons de bichos. Aproveito, portanto, para mandar através do líder indígena Almir Narayamoga Suruí, homenageado em Genebra, um forte abraço ao seu bravo povo, do “yara” que sofreu sua mesma dor naqueles conturbados tempos.

(*) É jornalista no Acre. Trabalhou em O Estado de S.Paulo. Trabalhou ainda em Belo Horizonte e Macapá. Em Rio Branco foi um dos fundadores do Varadouro, o jornal das selvas, notável nos anos 1970. Também foi fundador da Gazeta do Acre, hoje A Gazeta. Atualmente edita o site da Biblioteca da Floresta Marina Silva.

Siga Luciana no Twitter : www.twitter.com/lucapi

Comentários

  1. O juiz está correto, pois o efeito suspensivo só é concedido,quando a pessoa já ocupa o cargo e recorre à outra instância. Esse procedimento vem sendo adotado pela Justiça Eleitoral. É bom que fique claro, de que, em se tratando de eleição municipal, o juiz eleitoral é a maior autoridade e pode se respaldar no Art.41-A da Lei das Eleições (9.504/97),para cassar
    registro, diploma,mandato e direitos políticos.A situação do Roberto Goes, é complicada,pois ele poderá, inclusive, ficar impedido de exercere o mandato de deputado,se a cassação dos direitos políticos, for mantida.A Lei Popular em vigência,é draconiana.

    Escrito por Ruy Guarany Neves | 6/12/2008, 21:40

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