Simone Romero – O Liberal – 23/06
A Polícia Civil do Pará começa a desmontar os esquemas de roubo de bubalinos na ilha de Marajó. Para os criadores de gado da região, as operações representam um alento. Em algumas fazendas, o roubo já levou 30% do rebanho. Os produtores amargam duas perdas: além dos animais, o preço baixo cobrado pelos receptadores de gado roubado na venda para os matadouros gera concorrência desleal com o produto legalizado. Para o governo, esse tipo de crime também tem conseqüências negativas porque gera perdas na arrecadação de ICMS.
O desmonte das quadrilhas teve início com uma operação realizada em fevereiro. Após denúncia de produtores de gado do Marajó a polícia chegou a um matadouro em Macapá e constatou que, entre os animais no pátio de abate, havia 31 reses e 15 bezerros que, após perícia, foram identificados como roubados de fazendas marajoaras.
O receptador do roubo alegou que agiu de boa-fé e afirmou que, apenas este ano, já havia comprado perto de duas mil cabeças de gado da mesma origem. Foi feito um boletim de ocorrência em Macapá, mas os produtores de búfalo lesados se queixam da lentidão do andamento do processo. Até o momento não foi instaurado inquérito e os donos dos animais também não estão conseguindo ter acesso aos laudos periciais que determinaram a origem ilegal do gado.
Na semana passada, uma operação realizada pelos delegados Daurielson Silva, da Regional dos Campos do Marajó, e Miguel Cunha, da Delegacia de Polícia do Interior (DPI), conseguiu desmontar um dos portos clandestinos usados para o transporte entre o Marajó e Macapá.
Quatro receptadores foram identificados. A operação ocorreu no rio Ganhoão, no município de Chaves. De acordo com as informações levantadas pela polícia, o ponto de embarque – utilizado uma vez por semana – vinha funcionando há três anos e, nesse período, transportou perto de 10 mil cabeças de gado roubadas. Pelo menos sete quadrilhas de ‘bovineiros’ – como são chamados os ladrões de gado no Marajó – foram identificadas como fornecedoras dos receptadores. A polícia também encontrou búfalos e cavalos no local do porto. A perícia nos animais apontou que eles eram roubados.
Os responsáveis pelo embarque seriam Temistocles José Abreu Paes e seu filho Manuel Abreu Paes, que não estavam no local no momento da operação, mas devem ser indiciados. Os produtores de gado da região dizem que, em represália pelo desmonte, alguns estão sendo ameaçados de morte, duas casas de fazenda foram queimadas e que o gado roubado recolhido pela polícia para o curral de uma fazenda próxima ao Ganhoão foi alvo de uma nova tentativa de roubo, poucos dias depois da apreensão.
A operação de desmonte continua. A polícia paraense já identificou alguns compradores de gado roubado do Marajó e investiga o envolvimento de um fazendeiro no esquema. O fazendeiro estaria fazendo o abate clandestino de búfalos orubados e transportando a carne para o mercado de Belém escondida em geleiras de peixe.
Com um rebanho estimado em 400 mil cabeças, o Marajó é o maior produtor nacional de bubalinos. O rebanho local, no entanto, já foi de 700 mil reses. Problemas com o baixo preço de venda da carne de búfalo e os constantes roubos às fazendas, porém, provocaram uma retração na produção. Algumas fazendas que possuiam rebanho superior a cinco mil cabeças viram o plantem reduzido, nos últimos três anos, a quatro mil cabeças apenas pela ação dos ladrões.
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