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O Distrito do Maruanum, composto por mais de vinte comunidades tem sete delas – as comunidades de Conceição do Maruanum, Torrão do Maruanum, Simião do Maruanum, São Raimundo do Maruanum, Auto Pirativa do Maruanum, São Tomé do Maruanum e São José do Maruanum – separadas das demais comunidades bem como do núcleo central, a comunidade do Carmo do Maruanum, pelo Rio que ironicamente sempre foi um elo de integração. Em razão disso o povo local vem passando por um dilema que afeta diretamente o cotidiano de seus habitantes. Por estarem na margem “errada” do Rio Maruanum elas passaram a pertencer ao Município de Santana.
O estabelecimento do rio como divisa municipal foi adotado em 1987 quando da criação do município de Santana – pelo Governo Federal através do Decreto nº. 96.026 de 09.05.88 – que estabeleceu os limites dos municípios criados no então Território Federal do Amapá pela Lei 7.639 de 17.12 de 1987 que criou, entre outros, o município de Santana. Ambos instrumentos foram assinados pelo senador José Sarney quando então presidente da república.
O que deveria ser apenas o marco da emancipação para o povo de Santana virou uma crise na comunidade afro-descendente do Maruanum. Em virtude da lei, todas as comunidades localizadas na margem esquerda do rio passaram a pertencer ao município de Santana e ao recém criado Distrito do Pirativa. As comunidades da margem direita por sua vez continuaram pertencendo à Macapá e ao igualmente novo Distrito do Maruanum. Até bem pouco tempo as sete comunidades ficavam ligadas administrativamente ao distrito santanense do Igarapé do Lago e só descobriram a mudança no último sábado, 15, em anuncio feito pela secretária de Desenvolvimento Urbano do Município de Santana, Dinelma Reis.
Essa situação levou as lideranças do Maruanum a criar um movimento, que têm o aval de toda a população, tanto macapaense quanto “santanense” para pertencer ao município de Macapá. São duas as principais justificativas. A primeira é a questão geográfica. Por ficar mais próxima de Macapá do que de Santana e por compor historicamente o Distrito macapaense do Maruanum, e não o igualmente afro-descendente, do Igarapé do Lago, em Santana, no entendimento da comunidade, a distância é um obstáculo para que as comunidades se desenvolvam e recebam políticas públicas por parte da prefeitura de Santana.
Os moradores destas sete comunidades se queixaram que só agora, vinte anos depois da criação, a prefeitura de Santana “descobriu” que elas fazem parte do município. Além da questão geográfica, todos os serviços públicos municipais prestados na comunidade foram implantados por Macapá e recentemente, com a descoberta, as sete comunidades passaram a viver no limbo.
Apesar de se localizarem no território de Santana todos os habitantes votam em Macapá, estudam, usam os serviços de saúde e mesmo seus parentes vivem em Macapá, mas a prefeitura se recusa a fazer qualquer coisa alegando que as comunidades pertencem ao município vizinho. Por outro lado, por não votarem em Santana, o poder público não se sentiria responsável por eles. A segunda questão é o direito de unidade de todos os habitantes do Maruanum, assim como a permanência das tradições históricas e culturais das comunidades.
Vivendo em Macapá e sendo sepultados em Santana
O Argumento mais forte e que simboliza a divisão imposta pela burocracia federal, incapaz de enxergar as especificidades locais antes de tomar uma decisão, os povos do Maruanum viram seu cemitério ser repentinamente deslocado para o município vizinho. “Meus avós e meus bisavós viveram e morreram em Macapá e agora eles estão enterrados no município de Santana”, lamentou a professora Josilana líder do movimento, que continuou: “isto é uma violência, é inaceitável”.
Um trecho do Manifesto distribuído e assinado pelas comunidades do Maruanum sintetiza o sentimento de frustração dos moradores do local: “Aceitar que pertencemos a outro município é permitir que muitos dos nossos entes queridos que lutaram por um Maruanum melhor estejam em memória sepultados fora do lugar que mais amavam no mundo e isso para nós não pode acontecer”.
Reunião na comunidade define que caminho é o plebiscito
Na manhã do último sábado, 15 de março, foi organizada uma reunião pela Associação de Juventude do Maruanum, que tem como liderança a professora Josilana. A reunião foi organizada para discutir o processo de alteração de limite territorial. O deputado estadual Camilo Capiberibe (PSB), o vereador de Macapá Clécio Vieira (PSOL), a representante do Instituto de Mulheres Negras do Amapá (IMENA) Cristina Almeida, José Maria Paixão do Conselho das Comunidades Afro-Descendentes, e representantes da prefeitura de Santana, atenderam à convocação.
Antes da chegada das autoridades acima citadas, a presidenta da Câmara dos Vereadores de Macapá, Helena Guerra, chegou a se deslocar até a comunidade de Conceição do Maruanum, mas não permaneceu por afirmar que não havia um local adequado para o encontro, o que deixou os organizadores do evento, assim como a comunidade, bastante irritados.
Desinteresse político? – um dos deputados estaduais mais esperados na reunião, foi o líder do governo, Roberto Góes (PDT), que já vem se colocando claramente como candidato do governador Waldez Góes à prefeitura de Macapá neste ano. O pedetista não compareceu, mas recebeu uma das lideranças do Maruanum na Assembléia Legislativa, antes do evento. Esta liderança (que terá a identidade preservada) afirmou publicamente que o deputado Roberto Góes “colocou a nossa comunidade como objeto de troca, e isso a gente não aceita. Hoje eles estão do lado do governo e do prefeito, formando um grupinho, e isso a gente não aceita, eles querem comprar nosso voto? Isso não”, afirmou revoltado com a atitude do parlamentar Góes.
Foto: Professora Josilana, uma das lideranças do movimento em prol da inclusão do Maruanum ao município de Macapá.
Questão política – o processo de inclusão do Distrito do Maruanum ao município de Macapá dependerá da interferência política inicialmente no âmbito estadual, como prevê a Lei Estadual Complementar nº. 0001 de 17 de Março de 1992, onde no artigo 16, capítulo III, designa: “o desmembramento de parte do território de Município para a anexação a outro, far-se-á por Lei Estadual, precedida de consulta plebiscitária às populações diretamente interessadas observando, no que couber, o disposto nesta Lei complementar”, ou seja, anterior à sustentação de uma Lei Estadual, os interessados devem realizar um plebiscito.
O socialista Camilo, ao dizer que o poder público deve resolver a questão para respeitar as tradiçoes afro-descendentes do Maruanum.
O deputado estadual Camilo Capiberibe afirmou que a divisão geográfica da região foi feita pelo então presidente da República José Sarney, em 1987, “que, talvez por não conhecer a realidade dos povos afro-descendentes do Maruanum, decretou a divisão, o que vem gerando este impasse que vem dificultando há alguns anos a vida dos povos do Maruanum”.
O socialista ainda sustentou que por pertencerem ao mesmo partido político (PT), os prefeitos João Henrique e Antônio Nogueira deveriam se juntar para conseguir resolver o problema “de maneira prática e rápida”. O deputado do PSB também enfatizou que o poder público precisa respeitar e salvaguardar a história das comunidades negras do Maruanum e, se necessário, adotar fronteiras culturais que respeitem as tradições e a história, e não apenas a geografia.
Documento – O deputado Camilo Capiberibe solicitou à comunidade que redija um documento assinado pelos representantes de todas as comunidades que compõem o Maruanum, seja o lado Santanense, seja o lado Macapaense que servirá de base para a elaboração de um Projeto de Lei para encaminhar processo de consulta pública. “Este documento expressará formalmente o desejo do Maruanum de querer ser um só; precisamos respeitar o que as populações querem, e tenho certeza de que ninguém vai se opor à vontade do povo”. O deputado do PSB disse ainda que a solução do problema passa pelo consenso e não pela disputa. “É preciso unir as duas prefeituras, o governo do estado e a Assembléia Legislativa”.
O vereador Clécio Luís concordou que “as comunidades são unidas através de suas relações históricas e culturais, o que as torna únicas, e é com base nisso que vocês vão conquistar as vitórias. Tem uma questão política que tem que ser resolvida, pois, como se imaginava historicamente, pertencer a Macapá é a vontade soberana de todas as pessoas do Maruanum, e isso precisa ser respeitado”. O vereador disse ainda que a solução para a questão é do âmbito do estado e pode ser mesmo que ela exija uma ação no Congresso Nacional.
Os representantes da prefeitura de Santana afirmaram que uma equipe já teria ido à região para analisar os limites geográficos, sustentando ainda ser o “único posicionamento da prefeitura até agora” (Márcio Gonçalves, coordenador do Plano Diretor de Santana). “Nosso Plano Diretor foi participativo e veio dentro das comunidades. Vocês vão ter que fundamentar um documento e levar em frente, e o que a prefeitura quer analisar é se a comunidade quer realmente a mudança para Macapá, disse a técnica Dinelma Reis.
Dificuldades impostas pela distância – os representantes de todas as comunidades que forma a bela região do Distrito do Maruanum, foram unânimes em afirmar que a distância do município de Santana, comparado à Macapá, faz com que os problemas constantemente apareçam, e aproveitaram a reunião para reclamar da ausência de políticas públicas. Por exemplo, em Conceição do Maruanum, onde foi realizada a reunião, não há sequer um posto de saúde, e para dificultar mais ainda, o ramal que leva à comunidade é precário, atrasando o socorro quando é solicitado.
Problemas com o fornecimento de água e energia elétrica, telefonia, transporte, assim como a falta de uma escola melhor estruturada, também foram citados por representantes de outras localidades. “Nossa comunidade é esquecida, e só é lembrada em época de eleição quando o prefeito veio aqui. Eu reclamava sempre no rádio sobre o ramal de nossa comunidade, e nada foi feito. Nós somos esquecidos aqui sim”, desabafou dona Maria Raimunda.
Raul Mareco – Assessor de Imprensa
É louvável a divulgação deste evento, uma vez que ha 20 anos foram esquecidos pelo municipio que hoje os reclama.
Sou do Quilombo do mel da Pedreira(origem paterna), mas meu avô materno – Joaquim Crescêncio(tocador de clarineta da região)- foi nascido e criado no Maruanum. Sinto-me solidária aos meus irmãos daquele lugar, no sentido de preservar a unidade dos povos através da cultura afro-descendente impregnada no sangue de todos nós.
Estefania Cabral
Professora
Quilombo do Mel da Pedreira.
ao inves de vcs ficarem botando eles na internete então ajuda eles
Acredito que esteja na hora de retomarmos esse assunto!
Os moradores do Maruanum pernancem precisando de decisões serias e que possam realmente resolver nossos problemas, principalmente os inumeros problemas das comunidades que estão no “limite errado”. Oque acabou excluindo estes do que é fundamental para cada uma comunidade de acordo com suas necessidades!