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Artigo

Quem disse que é nossa?

MARCELO COELHO

Folha de São Paulo, 30 de janeiro

A Amazônia não é uma prioridade real para os brasileiros, mas é uma prioridade mundial

VEM DA AMAZÔNIA a má notícia de que o desmatamento cresceu além das previsões. Mas o que se chamava de boa notícia, em anos anteriores, afinal não era nada de tão bom assim: registrou-se, apenas, que o ritmo da devastação estava caindo e não que a tivessem interrompido, por um dia só que fosse. Vou perdendo a paciência com essas estatísticas e gostaria de fazer uma observação simples e radical.
Não tenho nem um centésimo das informações que meu xará da Folha, Marcelo Leite, pode dar sobre o assunto, e espero que desta vez não o confundam comigo, coisa que acontece com freqüência.
Sempre que alguém fala em “internacionalizar a Amazônia”, surge um grito de guerra: “A Amazônia é nossa!”.
Mas como assim, “é nossa?”. A Amazônia, no momento, é dos que a invadem e devastam. Sejam madeireiros, plantadores de soja, pecuaristas, mineradoras ou fabricantes de ferro-gusa que, segundo documento divulgado pela Confederação Nacional da Agricultura, precisam de mais florestas para fazer carvão do que os bois precisam de pastagens.
A Amazônia seria “nossa” se o poder público tivesse condições de impor a lei naquela região, se conseguisse fiscalizar e punir quem promove o desmatamento.
Mas o poder público brasileiro não consegue sequer fiscalizar e impor a lei dentro dos presídios de segurança máxima… Lugares onde, se existe algum, a fiscalização deveria ser total e o império da lei assegurado à risca.
Quando ocorre algum genocídio não sei em que lugar do mundo, é natural que se peça a intervenção da ONU. O que não significa dar carta-branca para uma potência tomar conta das riquezas de um país.
O que ocorre na Amazônia tem tudo para ser tão preocupante quanto um genocídio. A humanidade inteira é vitimada enquanto nós, brasileiros, agimos como aqueles manifestantes sérvios que orgulhosamente desafiavam as tropas internacionais, em completo desprezo pelas minorias étnicas que eram dizimadas por ali.
Achamos correto quando crimes contra a humanidade são submetidos a tribunais internacionais.
Pouca gente se dispôs a defender Pinochet quando um juiz espanhol considerou que as fronteiras chilenas não o protegiam do que fez contra o gênero humano.
Talvez não seja adequado levar os responsáveis pela devastação a um tribunal suíço. O caso em prol da Amazônia pode ser enunciado de forma diferente.
Trata-se de devolver às populações locais uma terra que pode ser explorada racionalmente se contar com ajuda, fiscalização e verbas do mundo inteiro.
Se governos estrangeiros e entidades internacionais, em concordância com o Brasil, puderem intervir no sentido de fazer da floresta uma região de preservação ecológica mundial, creio que a Amazônia seria mais “nossa” (isto é, de quem vive lá e não a derruba) do que é atualmente.
Outras “soluções”, para dizer francamente, não me parecem soluções. Quem imagina que o Ibama, o Exército, a Polícia Federal dispõem de recursos suficientes para tomar conta de tudo aquilo? E que direito temos nós de mascarar nossa ineficiência, nosso desleixo, com um nacionalismo que não engana ninguém?
O fato é que a Amazônia não é uma prioridade real para os brasileiros, que têm problemas terríveis a resolver bem mais perto -debaixo de cada ponte e viaduto urbano, para dizer o óbvio. Mas é uma prioridade mundial.
Parece-me infantil dizer que os americanos vão chegar aqui e tirar “nossas” riquezas. Quem está acabando com elas, e enriquecendo à custa de todo o planeta, é a madeireira (nacional ou não, isso pouco importa), o pecuarista, o plantador de soja.
O governo brasileiro bem que gostaria, imagino, de limitar esse enriquecimento. Mas não é objetivamente capaz disso. Concordo que “internacionalização” é uma palavra forte demais. Sugere a entrega de nossa soberania, sem nada em troca. Outras fórmulas, mais suaves, podem ser concebidas pelos especialistas no assunto. Não sou especialista no assunto. Pessoalmente, não temo usar a palavra. Nossa soberania, afinal, não existe. Existiria se pudéssemos impor nossa vontade sobre a região. Ano após ano, é precisamente isso o que verificamos não acontecer.

Siga Luciana no Twitter : www.twitter.com/lucapi

Comentários

Um comentário para “Quem disse que é nossa?”

  1. Cara blogger.

    Sinto muito por tudo o que acontece com a Amazônia, principalmente porque vivo nela, mas pensar em uma fiscalização do poder público a esta altura me parece até piada, sem ser sarcástico. O poder público nunca conseguiu se fazer presente todo esse tempo, como poderia fiacalizar alguma coisa?

    Outra situação é que hoje em dia é muito fácil apontar o dedo para a Amazônia e falar sobre devastação, grilagem, etc., mas ninguém fala que não se emite títulos definitivos há bastante tempo o que gera especulação sobre o preço da terra e barateia os custos de exploração.

    O artigo também deixa muito a desejar no resgate histórico da Batalha da Borracha, por exemplo, que trouxe milhares de nordestinos que morreram de várias doenças tropicais, vítimas dos planejamentos do governo federal para um ciclo extrativo e não para desmatar.

    Dessa forma, espero que artigos sejam publicados, mas que sejam mais respeitosos e dignos com a região, contanto os fatos e não somente as esperanças. Que se multe quem devasta, que se prenda quem devasta, mas que se observe os anos de negligência pública.

    Um abraço!

    Escrito por Joao Lima | 30/01/2008, 14:56

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